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Paradígma
versión impresa ISSN 1011-2251
Paradígma vol.37 no.2 Maracay dic. 2016
Las exigencias de una educación mestiza en MIA COUTO
Louize Gabriela Silva de Souza
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do RN
Maria da Conceição de Almeida
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Resumen
El artículo, de naturaleza bibliográfica, expone y problematiza ideas importantes presentes en la obra del autor de Mozambique Mia Couto, presentando reflexiones para la construcción de una educación diversa, plural y potenciadora de creatividad. Como biólogo y escritor de novelas, contos, crónicas, poesías y ensayos, utiliza esas áreas del conocimiento como forma de entender los misterios y las múltiples facetas de la vida. Su obra de base política, ética y militante nos presenta al importancia de un intelectual múltiple, transdisciplinario y comprometido con su hogar, su tiempo y sus ideas, además de estar disponible para conocer otros fenómenos, escenarios y narrativas. A lo largo del texto, presentamos diferentes personajes construidos por el autor que nos llevan a comprender la necesidad de una educación compleja que opera por conjunción y diálogo entre los saberes.
Palabras clave: Mia Couto, Educación, Complejidad.
The demands of a mixed education in MIA COUTO work
Abstract
This article discusses important ideas present in Mia Coutos work, a Mozambican writer who proposes reflections on the construction of a diverse, plural and dynamic education emphasizing creativity. As a biologist and writer of novels, short stories, essays, poems, the author uses the aforementioned areas as a way to understand the mysteries and the many facets of life. The authors work, which has an ethical and political character, presents the importance of a multiple, disciplinary intellectual, and is committed to the authors place, time and ideas. Beyond that, the work is available to meet other phenomena, scenarios and narratives. Throughout the text, we selected different characters shown by the author who lead us to understand the need of a complex education that works in conjunction with dialogue to provide different knowledge.
Key-words: Mia Couto, Education, Complexity.
As exigências de uma educação mestiça em MIA COUTO
Resumo
O artigo, de natureza bibliográfica, expõe e problematiza ideias importantes presentes na obra do moçambicano Mia Couto, apresentando reflexões para a construção de uma educação diversa, plural e potencializadora de criatividade. Como biólogo e escritor de romances, contos, crônicas, poesias e ensaios, utiliza essas áreas do conhecimento como uma forma de entender os mistérios e as múltiplas facetas da vida. Sua obra de base política, ética e militante nos apresenta a importância de um intelectual múltiplo, transdisciplinar e comprometido com seu lugar, seu tempo e suas ideias, além de estar disponível para conhecer outros fenômenos, cenários e narrativas. Ao longo do texto, elencamos diferentes personagens construídos pelo autor que nos levam a compreender a necessidade de uma educação complexa que opera por conjunção e diálogo entre os saberes.
Palavras-chave: Mia Couto, Educação, Complexidade.
Recibido: 18 de agosto de 2016 Aceptado: 19 de octubre de 2016
Introdução
O século 21 tem-se apresentado como um momento de grandes transformações em diversos âmbitos da sociedade, sendo a educação um destes espaços. No entanto, o que observamos é um modelo de escola que tem reproduzido, muitas vezes, práticas, metodologias, posturas e padrões que não são condizentes com os atuais desafios.
Sabemos que a estrutura curricular da educação básica é por vezes construída de forma extremamente conteudista. Informações demais, aprendizagens de menos. A escola lança informações e dados a todo vapor, sem permitir que o aluno tenha tempo para processar tudo aquilo. Muitas vezes o que observamos é a ênfase em conteúdos abstratos, fragmentados e sem relevância para a vida dos sujeitos. Além disso, a desvalorização da criatividade do aluno é notória, pois a formação de sujeitos para o mercado de trabalho é entendida como foco principal para muitas instituições de ensino.
Esse modelo de educação vem sendo criticado ao longo de vários séculos. A crítica a um modelo de educação conteudista tem sido alvo de críticas e questionamentos por parte de muitos pensadores de tempos distintos. João Amós Comenius (1592-1670), Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), Célestin Freinet (1896-1966), Paulo Freire (1921-1997), Edgar Morin (1921), entre outros, são alguns dos nomes que desenvolveram argumentos assumidamente políticos e provocativos, alertando para a necessidade da construção de uma educação transformadora. Alguns destes educadores são considerados clássicos nos estudos da educação, uma vez que, seus estudos apontam princípios, ensinamentos e matrizes importantes para a construção de um modelo de educação que rompa com uma estrutura rígida, fragmentada e focada nos resultados.
Além desses pensadores, outros apresentam posicionamentos múltiplos e por vezes opostos, mas não antagônicos, contribuindo para ampliar os estudos na área. O biólogo e escritor moçambicano Mia Couto também poderia fazer parte da lista de grandes educadores. Conhecido como um militante no que diz respeito à resistência dos saberes plurais, à valorização da riqueza produzida pelas culturas ligadas às tradições seculares e ao respeito ao diverso, Couto nos presenteia com um repertório de princípios, valores e argumentos que contribuem para diversificar e complementar o ideário de formação oferecido pelos clássicos da educação.
Diante destas considerações, este artigo surge com o objetivo de apresentar e explorar os estudos de Mia Couto para formação dos sujeitos e para a construção de uma educação diversa e plural. A escolha por este intelectual justifica-se por identificarmos em sua obra reflexões que permitem construirmos estratégias capazes de fecundar uma educação que desperte nos sujeitos o desejo de romper com a imposição de um mundo maestrado pela monocultura da mente (SHIVA, 2003) e de uma linguagem única e de valores que celebram o individualismo e a competição.
Mia Couto: um educador plural
Filho de portugueses, nascido em 1955, na cidade de Beira em Moçambique, Mia Couto ganhou notoriedade e importância por sua obra literária, mas também pelo seu envolvimento com as questões e problemáticas de seu tempo. Participou ativamente da luta pela independência do seu país como membro da Frente de Libertação de Moçambique FRELIMO. Atualmente, depois de vivenciar dois períodos intensos de guerra, sua luta é pela recuperação da identidade cultural do país.
Defensor obstinado por dar voz aos desfavorecidos e àqueles que estão à margem do progresso, Couto recusa o discurso de autovitimização, aconselha os sujeitos a lerem o mundo com outras lentes e, assim, contribuir para a sua transformação. Acredita ser mais proveitosa a resistência dos conhecimentos plurais e a valorização dos seus saberes do que a aceitação da imposição de valores importados.
Escritor e biólogo de formação aberta que não mora o tempo inteiro na biologia, nem tão pouco na literatura. Essas duas áreas são, de acordo com ele, apenas moradias que visita com frequência, compreendendo-as como janelas para observar o mundo. O autor anuncia,
Eu não sou de confiança. E não mereço confiança porque me falta a crença, essa espécie de fé que deve ser o chão de um cientista. Sou um biólogo, mas não moro na biologia. Estou na biologia como um visitante, com a alma errando pelos domínios da literatura. (COUTO, 2005a, p. 113).
Mesmo afirmando que não habita o tempo inteiro essas duas moradas, confessa que tem dificuldade de pensar como seria sua vida de biólogo sem ser escritor e vice-versa. Assume que, quando está em um ambiente demasiado literário, apresenta-se como biólogo; porém, quando está junto aos seus pares, diz-se escritor. Em entrevista ao Programa Roda Viva, afirma:
Da mesma maneira que não quero ser um escritor, também não quero ser um biólogo. Eu sou muito mau biólogo, sou muito mau cientista, nesse sentido de ver a ciência como uma espécie de religião, de [achar] que há [na ciência] resposta para tudo. Eu uso a biologia como uma parte das respostas, uma lógica que também me é importante ter. O que a biologia me deu foi conferir uma certa familiaridade com coisas que eu achava importantes. Quer dizer, eu hoje sei falar a língua de algumas árvores, digamos assim, nesse sentido metafórico, é claro. Ganhei intimidade com coisas que para mim eram realmente fundamentais, essenciais, processos vitais, entender como é que a vida se processa e como é que nós somos parte desse conjunto harmônico. Isso para mim foi importante para saber o meu tamanho, a minha dimensão e como é que eu tenho que me inserir nessa coisa chamada vida. (MARKUN, 2007)1.
Autor de poesias, contos, crônicas, romances e livros de intervenções, a obra de Mia Couto é extensa e já percorreu diversos lugares do mundo. Dois livros dentre a obra do autor ganham destaque aqui. São eles: Pensatempos. Textos de opinião (2005) e E se Obama fosse africano? E outras interinvenções (2009), uma vez que apresentam textos que têm como função provocar questionamentos e debates sobre as reais problemáticas de nosso tempo. Na apresentação de E se Obama fosse africano, o autor anuncia: Os textos que aqui se reúnem cumprem a missão de intervenção social que a mim mesmo me incubo como cidadão e como escritor (COUTO, 2009a, p. 10).
Em diferentes textos ensaísticos e entrevistas que concede a jornais e revistas, reconhece que os conhecimentos aprendidos na universidade, agregados aos saberes e experiências da infância, da família, da literatura, da política, das artes e do cenário de um tempo, lhe permitiram tornar-se o profissional e ser humano que é.
Assumindo os riscos, faz uso da palavra para denunciar os desmandos e abusos do poder; para alertar para a necessidade de recusa dos modelos do Ocidente em relação aos problemas de seu país; e para incutir na mente das pessoas a necessidade de preservação da oralidade como um código rico de expressão da cultura. Sua empreitada é fazer com que suas ideias sejam disseminadas, inicialmente, entre os moçambicanos e, de forma gradativa e abrangente, entre os africanos. Reencantar diariamente um povo que sofreu e sofre com tanta crueldade e discriminação é um dos seus grandes desafios.
Apesar de ser compreendido como um dos principais escritores e nomes do seu país, afirma: eu não me considero representante de Moçambique, me considero apenas representante de mim mesmo2 (AZAREDO, 2011). É aqui que entra em cena a expressão tão cara a Edgar Morin: a vida nas ideias e as ideias na vida. Ou seja, aquilo que se constitui como um princípio do pensamento complexo: a implicação do sujeito no conhecimento. Mesmo que não deseje carregar o peso e responsabilidade de representar um país, Mia Couto não pode fugir a essa dialógica entre experiência de vida e produção de ideias. Essas duas faces se hibridam e fazem parte da vida do intelectual de forma interligada e inseparável.
Mia Couto parece cultivar uma alma infantil e inventiva. Talvez, porque saiba a importância do lado poético da vida. Na entrevista que concede ao jornal português Público, num tom bem-humorado, assim se apresenta: Sou um branco que é africano; um ateu não praticante; um poeta que escreve prosa; um homem que tem nome de mulher; um cientista que tem poucas certezas na ciência; um escritor numa terra de oralidade 3 (RIBEIRO; MANSO, 2014).
A poesia chegou de forma sutil em sua vida. Recebeu influências de seus pais, Fernando Couto, jornalista e poeta, e Maria de Jesus, contadora de histórias. Cresceu num ambiente mestiço fortemente marcado pela oralidade. Desde cedo, ouvia os antigos contadores de histórias que entrelaçavam em suas narrativas aspectos da realidade com o imaginário. Nas palavras do autor,
Eles me traziam o encantamento de um momento sagrado. Filho de um poeta ateu, aquela era a minha missa, aquele era o recado do divino. (...) Eu queria saber quem eram os autores daquelas histórias e a resposta era sempre a mesma: ninguém. Quem criara aqueles contos haviam sido os antepassados, e as histórias ficavam como heranças dos deuses (COUTO, 2005a, p. 150-151).
Na sua infância recebeu duas grandes influências: uma educação aprendida e experimentada na rua e outra em casa. Mia Couto fala em algumas entrevistas e livros que era em casa que a influência de Portugal lhe chegava. O universo da escrita e dos livros fazia parte desse mundo. Por outro lado, era na rua, brincando com os meninos de sua idade e escutando as histórias narradas pelos contadores de histórias, que ia conhecendo e se apaixonando pela África e pela oralidade. Foi, portanto, nesse cenário mestiço que o moçambicano cresceu e aprendeu a apreciar os dois mundos.
Em, 1971, entra no curso de Medicina, porém abandona essa área para alistar-se na Frente de Libertação Nacional (FLN) movimento criado em 1962, de luta pela independência de Moçambique de Portugal. Em entrevista à Revista Ser Médico, confessa: A passagem pela medicina foi fugaz, mas a minha entrega ao sonho de ser médico era um sonho de menino. Eu queria curar o mundo. E isso não tem profissão 4 (DUARTE; GOLDENSTEIN, 2011). Já no seu livro de poesias Tradutor de Chuvas, anuncia um pouco da profissão que exerceria e da influência de seu pai para ingressar no mundo das letras.
Deslição de Anatomia

(COUTO, 2011a)
Começou sua carreira de escritor ainda na adolescência com o jornalismo. Foi com essa área do saber que, segundo Couto, conheceu e aprendeu muito sobre Moçambique. O escritor que é hoje resultou, em parte, da sua experiência como jornalista. Apesar das aprendizagens, confessa:
Depois senti falta do lado mais fascinante da viagem, que é olhar dentro das pessoas: o jornalismo não dá tempo, não permite essa profundidade no estar com os outros. O jornalismo deu-me uma certa disciplina, ensinou-me o uso da escrita como um meio de chegar aos outros5 (THOMAZ; CHAVES, 1998, p. 2-3).
Essa disciplina à qual Mia Couto se refere foi necessária para ele reconhecer que era preciso ir além. Conhecer outras lógicas, linguagens e formas de viajem. Tornou-se biólogo. As poucas certezas que essa área oferece, lhe deram uma certa indisciplina, que permitiu vivenciar outras lógicas dos espaços rurais que extrapolam sua experiência do universo urbano. Para o autor, esse campo do saber é fascinante e o considera como uma indisciplina científica, um modo de estar mais próximo das perguntas do que das respostas (COUTO, 2009a, p. 53).
Como biólogo e escritor, utiliza essas áreas do conhecimento como uma forma de compreender os mistérios e as múltiplas facetas da vida. Atua nesses dois grandes domínios, mas não se considera um especialista em nenhum deles. Para ele, sentir-se somente biólogo ou literato reduziria as possibilidades de explorar saberes diversos.
Desafio do educador: sair da superespecialização para operar por conjunção
A esse respeito, anuncia: o que me dá prazer é percorrer como um equilibrista essa linha de fronteira entre pensamento e sensibilidade, entre inteligência e intuição, entre poesia e saber científico (COUTO, 2009a, p. 58). Essa discussão sobre a especialização pode ser ampliada por Edgar Morin (2006, p. 14-15), quando diz,
Quanto mais os problemas se tornam multidimensionais, maior a incapacidade de pensar sua multidimensionalidade; quanto mais a crise progride, mais progride a incapacidade de pensar a crise; quanto mais planetários tornam-se os problemas, mais impensáveis eles se tornam. Uma inteligência incapaz de perceber o contexto e o complexo planetário fica cega, inconsciente e irresponsável.
Sabemos que a especialização é importante na formação de profissionais eficientes e habilidosos num determinado campo do conhecimento. Mas o sujeito que está acostumado a olhar um problema por uma única e mesma lente, desconsidera as outras possibilidades que surgem e desconhece o contexto maior de sua especialidade e das questões fundamentais da sociedade em que vive. Não se trata, portanto, de abolir os técnicos e especialistas, mas de abrir caminhos para o reencontro entre os diferentes pontos de vista, instigando-os a conhecer outros lugares, fenômenos e horizontes.
Nos diversos lugares que percorre por causa de sua profissão de formação, conhece outras lógicas, crenças, formas de ver o mundo e culturas. Muitas vezes é recrutado como tradutor, mas assume que se sente muito mais um tradutor de almas e sonhos do que de línguas, afinal, em alguns lugares da África, determinadas palavras, que podem parecer universais para nós, não têm significado. Relata que alguns até duvidam de sua competência de tradutor. Ora, como é possível não existir tradução para, por exemplo, a palavra pobre e a expressão Meio ambiente? Para Couto (2009a, p. 22), os sistemas de pensamento da ruralidade africana não são facilmente redutíveis às lógicas dominantes da Europa.
Longe de classificá-lo como um simples literato, podemos ver em Mia Couto um militante intelectual engajado na história do seu tempo. Ao preocupar-se com os problemas locais, reinventa em sua escrita uma nova nação. Apesar de ter vivenciado um contexto extremamente cruel como o da guerra, o princípio da esperança é recorrentemente recrutado em suas falas, livros e textos. O amor à sua terra é motor responsável por dar vida a um universo que, para muitos, permanece desencantado.
É na escrita que encontra a possibilidade de assumir vários papéis. Para ele, esse é o encantamento maior da literatura, pois é possível se multiplicar em diversos personagens. Afirma que sua forma de escrever foi influenciada pela literatura brasileira. Descobriu com Graciliano Ramos e Jorge Amado que a língua podia ser outra coisa. Mas foi com o escritor angolano Lundiano Vieira que teve seu primeiro contato com alguém que escreve um português difícil de entender, dando-lhe a autorização de como fazer. Foi por meio de Vieira que conheceu as obras de Guimarães Rosa.
No texto Que África escreve o escritor africano?, Mia Couto critica os escritores que se apressam a encontrar uma essência para aquilo que chamam de africanidade (COUTO, 2005, p. 60), principalmente porque esse termo vem acompanhado de uma série de preconceitos e distorções. Como se a África fosse entendida como um lugar único, puro, misterioso e singular. Para ele, exige-se a um escritor africano aquilo que não se exige a um escritor europeu ou americano. Exigem-se provas de autenticidade. Pergunta-se até que ponto ele é etnicamente genuíno (COUTO, 2005, p. 62). Couto alerta que é preciso sair dessa armadilha para não ceder à tentação da busca pelo autenticamente africano. Ou seja, muitos esperam que os textos traduzam a visão distorcida que se tem da África como um lugar marcado pela pureza, pelo exótico e exterior à modernidade. Seu alerta é no sentido de assumir a literatura africana como autônoma, que carregue em sua essência um sentimento de nação. Num tom provocativo, o autor finaliza o texto, dizendo o que queremos e sonhamos é uma pátria e um continente que já não precise de heróis (COUTO, 2005, p. 63).
Mia Couto apresenta uma narrativa que não se adéqua aos critérios da objetividade e da razão, justamente porque não está preocupado em seguir normas e as formas institucionalizadas. Seus textos ajudam a despertar nossas aptidões oníricas e criativas, que aos poucos vão sendo adormecidas e castradas, desde cedo, nas escolas. Infelizmente, esse espaço tem negado e substituídos a diversidade de histórias, fábulas, mitos e atividades lúdicas que são responsáveis por alimentar nossa curiosidade e imaginação.
Ensinamentos como os de Couto podem ajudar a alargar uma concepção de educação para além dos muros da escola. Mas permitem uma educação diversa, plural, que forme para cidadania e que desperte nos sujeitos novos posicionamentos diante as demandas do mundo em transformação.
Nossa educação escolar e não escolar, na maioria das vezes, foi sendo construída e experimentada na presença de mestres, condutores, professores. Ao longo de nossa trajetória vamos identificando figuras que nos conduzem e guiam na difícil, mas fascinante tarefa da construção do conhecimento. Nossos mestres são primordiais para nutrir nossas ideias, interrogações e incertezas, nos permitindo organizar, reformular e consolidar nossas matrizes teóricas.
Mia Couto apresenta quase sempre em seus romances, condutores, guias, mestres, educadores que servem de referência para os seus personagens. A maioria ensina saberes que ultrapassam aqueles aprendidos na escola; são sabedorias que servem para toda a vida. Os dois jovens, Marianinho de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2003) e Kindzu Terra Sonâmbula (2007), são personagens que ilustram as contribuições de seus mestres.
Juca Sabão era para mim uma espécie de primeiro professor, para além da minha família. Foi ele que me levou ao rio, me ensinou a nadar, a pescar, me encantou de mil lendas (Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, 2003, p. 61).
Kindzu fala de sua amizade com seu mestre, o pastor Afonso: Com ele aprendia outros saberes, feitiçarias dos brancos como chamava meu pai. Com ele ganhara esta paixão das letras, escrevinhador de papéis como se neles pudessem despertar os tais feitiços (Terra sonâmbula, 2007a, p. 24-25).
O próprio Mia Couto anuncia em diversos lugares que teve muitos mestres: seus pais, os escritores João Guimarães Rosa, Lundiano Vieira e, principalmente, os contadores de histórias e os sábios que conhece quando realiza seus trabalhos de biólogo.
A terra onde nasci e onde vivo Moçambique é um país pobre e apenas um pequeno grupo tem acesso àquilo a que chamamos ciência. Mas existem nas zonas rurais gente que, sendo analfabeta, é sábia. Eu aprendo muito com esses homens e mulheres que têm conhecimentos de outra natureza e que são capazes de resolver problemas usando uma outra lógica para o qual o meu cérebro não foi ensinado. Este mundo rural, distante dos compêndios científicos, não tem menos sabedoria que o mundo urbano onde vivemos. Estar disponível para escutar nessa linha de fronteira: essa pode ser uma grande fonte de prazer. Só se conta uma história que seja bonita se tivermos prazer nesse empreendimento (COUTO, 2005a, p. 48-49).
Outro personagem que permite refletirmos sobre as lições que os mestres oferecem na vida dos seus alunos é o do garoto Mwanito e do seu irmão Ntunzi, do livro Antes de nascer o mundo (2009b). Como naquele lugar o pai Silvestre Vitalício não permitia a entrada de nenhum livro, o garoto só teve acesso às primeiras letras, graças aos rótulos dos materiais bélicos: a guerra roubou-nos memórias e esperanças. Mas, estranhamente, foi a guerra que me ensinou a ler as palavras (COUTO, 2009b, p. 40). O mundo da leitura e da escrita foi vivenciado por Mwanito de forma clandestina.
E foi assim que começaram as primeiras lições. Uns aprendem por cartilhas, em sala de aula. Eu me iniciei soletrando receitas de guerra. A minha primeira escola era um paiol. As aulas ocorriam na penumbra do armazém.
Eu já juntava palavras, tecendo frases e parágrafos. Rapidamente notei que, em vez de ler, a minha tendência era entoar como se estivesse perante pauta de música. Não lia, cantava, redobrando a desobediência.
- Não tem medo de sermos apanhados, Ntunzi?
- Você deve ter medo é de não saber. Depois da leitura, vou ensinar-lhe a escrever.
Não tardou que começassem as clandestinas lições da escrita. Um pequeno graveto rabiscava na areia do quintal e eu, deslumbrado, sentia que o mundo renascia como a savana depois das chuvas. Aos poucos, eu entendia as interdições de Silvestre: a escrita era uma ponte entre tempos passados e futuros, tempos que, em mim, nunca chegaram a existir (COUTO, 2009b, p. 41-42).
Reconhecemos nesses mestres a preocupação com o ensinamento daquilo que é necessário para a vida dos sujeitos e para a formação do homem. Percebemos com esses exemplos o acesso a uma educação mais totalizadora e humanitária, responsável por ensinar, respeitar e apreciar outros tipos de saberes. A célebre frase de Rousseau compactua com a ação desses personagens. Viver é o ofício que lhe quero ensinar. Saindo de minhas mãos, ele não será, admito, nem magistrado, nem soldado, nem padre: será antes de tudo um homem: tudo aquilo que um homem deve ser, ele saberá sê-lo, neste caso, como qualquer um (ROUSSEAU, 2004, p. 15).
Ensinar aos alunos os preceitos da vida deveria ser uma ação política e pedagógica corriqueira nos espaços formativos, sendo incorporada nas atitudes de todos os envolvidos nos processos educacionais. As ideias de Mia Couto nos proporcionam refletir acerca da Educação como uma arte de conduzir bem os sujeitos, considerando as incertezas que rodeiam esse percurso e, ao mesmo tempo, lançando mão de estratégias que permitam guiar o aluno para uma autoeducação ao longo da vida. Essa aposta ultrapassa os muros das escolas e universidades e é capaz de incitar nos sujeitos o seu compromisso com um mundo melhor.
As discussões apresentadas por Mia Couto e a afirmação de Einstein de que Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Porque se tornará assim uma máquina utilizável, não uma personalidade. (EINSTEIN, 1981, p. 29) me servem de referência e guia para construção diária de minha prática docente. Enquanto professora da licenciatura em química vivo constantemente o desafio de apresentar para os estudantes uma formação que contemple os ensinamentos técnicos, mas também as dimensões éticas, estéticas, políticas e humanas inerentes aos conteúdos e a relação dialógica entre ensino e aprendizagem.
Estabelecer um diálogo entre a química e as outras áreas de conhecimento tem sido um desafio a que me proponho. Considerada por muitos estudantes como uma disciplina abstrata e de difícil compreensão, busco fazê-los compreender que a química está presente em tudo que está ao nosso redor. No nosso corpo, nos objetos e em diferentes espaços. A cada discussão estabelecida em sala de aula, os alunos vão refletindo acerca da função social desta disciplina e sua natureza transdisciplinar, contribuindo para construção de uma visão de mundo mais articulada, contextualizada e menos fragmentada.
Ao apresentar o contexto de fragmentação que está nas bases da ciência clássica, os alunos vão aos poucos compreendendo que é preciso promover estratégias que visem à superação da fragmentação e da sequência linear com que são trabalhados os conteúdos da química. Estas discussões são necessárias para que os alunos compreendam o diálogo que deve existir entre as diferentes ciências.
Os ensinamentos de Mia Couto nos permitem desejar e construir uma educação que possibilite a abertura para as diversas linguagens do mundo; que aposte nas crenças e sonhos de cada aluno; que incentive a humildade diante da vida; e, por fim, que promova ações que desvelem as potencialidades imaginativas e criativas dos sujeitos.
Podemos finalizar afirmando que o autor aqui em estudo é um intelectual que religa a ciência com vida, afeto e poesia. Seu exemplo permite reconhecer a importância, cada vez mais urgente, de uma formação múltipla e transdisciplinar do sujeito. Aquele que se interessa em escutar o outro e que busca respostas em territórios novos para tentar entender as problemáticas de sua área é mais do que um especialista, é um intelectual comprometido com o seu campo de interesse. Intelectual não é aquele que se fecha em um compartimento disciplinar e esquece o mundo à sua volta, mas é sempre um nômade, na vida e nas ideias (ALMEIDA, 2010, p. 19). É aquele sujeito que tem um compromisso com seu lugar, seu tempo, suas ideias, mas que está disponível também para conhecer outros fenômenos, outros cenários, outras narrativas.
Notas
1 Entrevista concedida por Mia Couto a Paulo Markun. Publicada no Programa Roda Viva.
2 Entrevista concedida por Mia Couto a Marina Azaredo. Publicada na Revista Educar para Crescer.
3 Entrevista concedida por Mia Couto a Anabela Mota Ribeiro e Miguel Manso. Publicada no jornal português Público.
4 Entrevista concedida por Mia Couto a Ivolethe e Duarte e Eduardo Goldenstein. Publicada na Revista Ser Médico.
5 Entrevista concedida por Mia Couto a Omar Ribeiro Thomaz e Rita Chaves. Publicada na Folha de São Paulo.
Referências
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