Interciencia
versión impresa ISSN 0378-1844
INCI v.34 n.2 Caracas feb. 2009
Mais sobre ciência e verdade.
Alguns anos atrás, a propósito de um trabalho publicado em Interciência que demonstrava com técnicas altimétricas precisas que a altura verdadeira da montanha mais alta da Venezuela era diferente à aquela assumida e ensinada como certa, editorializamos em torno ao problema da verdade científica. Hoje voltamos com mais sobre este tema, com motivo das posições extremas adotadas em torno a assuntos de grande importancia para a humanidade toda, como são as polêmicas existentes em torno a mudança climática e ao esgotamento dos recursos energéticos e alimenticios.
Naquela ocasião se tratava de um assunto aclaratório sobre o qual não estava sugerida polêmica alguma. Era resultado do descobrimento de uma verdade diferente à assumida até esse momento. Na ocasião presente sim se trata de uma questão polêmica por sua complexidade, pelo muito que falta por aprender e, sobretudo, pelos ingentes interesses institucionais, nacionais, comerciais ou de outros tipos que estão envolvidos.
Não é estranho que quando tais interesses estão em jogo se geram posições diametralmente opostas em torno a um mesmo problema. Em matéria de índole política e, as vezes, social, é difícil dilucidar a razão ou ser objetivos. Em matéria de índole técnica deveria ser fácil, mas não sempre é. A realidade não sempre é unívoca, ainda que assim o queiramos.
Reconhece-se que o clima está mudando, mas resulta difícil ser unívoco sobre a diferença existente com mudanças que ocorreram no passado e, mais ainda, em aspectos tais como suas causas e suas consequências ao longo prazo, onde os argumentos e sua sustentação são diversos e poderosos. Pior ainda se apresenta a situação no referente ao esgotamento das fontes energéticas atuais devido a que cerca do 80% da energía que se consome no planeta provêm de fontes não renováveis, sobretudo fósseis.
Enquanto as discrepâncias dos especialistas quanto ao horizonte temporal desse esgotamento não deixam de ser importantes, muito mais o são aquelas referentes às vías para sua superação e as consequências que elas podem ter. A geração de energía, seja por vías tradicionais não baseadas nos combustiveis fósseis, como a hidráulica, nuclear e geotérmica, ou com as novas energías alternativas como a eólica ou química, têm defensores e detractores, prós e contras. Um âmbito relacionado, o dos requerimentos de combustíveis para o transporte automotor, é particularmente polêmico.
Os combustíveis derivados da matéria orgânica ou agrocombustiveis são vistos como possíveis substitutos parciais da gasolina, mas sua produção a níveis significativos requer grandes extensões de terras agrícolas, e sua produção e uso são contaminantes. Para os se preocupam pela preservação ambiental se sugere o dilema agrocombustiveis versus mudança climática, enquanto que para quem se preocupa pela disponibilidade de terras e produtos suficientes e acessíveis para alimentar a humanidade o dilema sugerido é o de agrocombustiveis versus alimentos. Para outros, dependendo de onde é colocada a "ênfase, se trata de alimentos versus mudança climática e não de alimentos versus combustiveis. A estas alturas, existe bastante ciência mas ainda parece haver muitas verdades ou enfoques por dilucidar.
Os enfrentamentos existem e as buscas, estudos e resultados, assim como os argumentos desenvolvidos sob enfoques unívocos, ameaçam com extender-se sem fim. Ciência e tecnologia, economia e política estão na obrigação de buscar em forma conjunta os meios para que as gerações venideras possam contar com um planeta onde viver, com alimentos suficientes. Não consegui-lo levará mais cedo que tarde ao desaparecimento de nossa espécie.
Para alcançar uma adequada difusão das investigações que se realizam, assim como para coadjuvar à formação de uma conciência cidadã informada que possa influir em seu próprio futuro, as revistas científicas, sem tomar parte a favor de uma posição ou outra, devem ser portavozes de todos os enfoques, sempre que sejam abordados com a rigorosidade e neutralidade necessária, o qual não sempre é o caso.
Miguel Laufer, Diretor











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