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Revista de la Facultad de Agronomía

versão impressa ISSN 0378-7818

Rev. Fac. Agron. v.22 n.2 Caracas abr. 2005

 

Levantamento físico conservacionista do Ribeirão Lavapés, Botucatu, sp

C. Sérgio1, X.B. Zacarias1, G.C. Lincoln1, L.R. Fernanda1 e A.A.J. Armindo1


1
Departamento de Engenharia Rural FCA/UNESP CP 237 - CEP 18603-970, Botucatu, SP. Email: seca@fca.unesp.br

 

Resumo

O trabalho visou o levantamento físico conservacionista da bacia do Ribeirão Lavapés, Botucatu, Estado de São Paulo, Brasil, baseado no parâmetro ambiental «Coeficiente de Rugosidade» e 10 microbacias, fornecendo subsídios aos órgãos de preservação ambiental, com informações que possam vir a impedir o corte de áreas de florestas nativas remanescentes, nas regiões de declividade elevada das microbacias, além de possibilitar, ordenadamente o uso da terra, que vem causando erosões e assoreamento de reservatórios e cursos d' água, gerando alto grau de deterioração físico ambiental para a bacia (69,46%). O coeficiente de rugosidade médio para as microbacias, permitiu classificá-las para utilização com agricultura e urbanização, pecuária e reflorestamento; ou seja, indicou-a para vocação principal com uso para pecuária (Classe B). As imagens do Sensor TM do LANDSAT 5, permitiram o mapeamento do uso da terra da bacia de maneira rápida, além de fornecer um banco de dados para futuros planejamentos. O parâmetro, coeficiente de rugosidade, permitiu classificar as microbacias 5, 8 e 9 com vocação para agricultura (Classe A); as 1, 6, 9 e 10 para pecuária (Classe B); as 2, 4 e 7 para pecuária e reflorestamento (Classe C) e a 3 para floresta e reflorestamento (Classe D).

Palavras chave: coeficiente de rugosidade, ocupação do solo, levantamento físico conservacionista.

Physical conservation srveying in of Lavapes River basin, Botucatu, sp

Abstract

The aim of this research was to elaborate the physical conservation survey of the basin of the Lavapés River, Botucatu, São Paulo, Brazil, for the rational soil occupation based on the «Ruggedness number». The following conclusions showed that the degree of the environmental physical deterioration for the basin was of 69.46%. The high values of the determination degree was probably due to the inappropriate use of the land which caused silting of the reservoirs and the creek sedimentation. The average Ruggedness number for the basin of Lavapés River allowed its classification for agricultural, cattle-raising and reforest, with the principal vocation for the cattle-raising use (Class B). The images of the Sensor TM LANDSAT 5 allowed a quickly mapping of soil use of the basin, and provided a database for future planning. The parameter and the ruggedness number allowed to classify the basin as 5, 8 and 9 with vocation for agriculture (Class A); basins 1, 6, 9 and 10 for cattle-raising (Class B); basins 2, 4 and 7 for cattle-raising and reforest (Class C) and basin 3 for forestry and reforest (Class D).

Key words: ruggedness number, soil occupation, physical conservation surveying.

Recibido el 9-12-2003 

Aceptado el 30-5-2004

Introdução

O planejamento do uso da terra é um dos estudos mais importantes no manejo de bacias hidrográficas, uma vez que são determinadas as áreas de conflito existentes definindo, assim, as unidades de manejo (11).

O conhecimento da deterioração ambiental, causada pelo uso desordenado dos recursos naturais, pode ser obtido através de um levantamento de uso do solo que, segundo Rocha (10) consiste num completo mapeamento das condições edafoclimáticas, avaliação quantitativa da cobertura vegetal e de outros elementos ocorrentes sobre a região estudada, que devem ser convencionados utilizando-se uma simbologia adequada, de forma a facilitar, posteriormente, a sua identificação.

O manejo integrado de bacias hidrográficas é, para Rocha (11) uma proposta educativa e corretiva para recuperar o meio ambiente deteriorado, sugerindo as alternativas mais viáveis para a proteção e preservação da natureza e para melhorar a qualidade de vida humana e das comunidades permitindo, assim, o uso dos recursos naturais de forma mais racional e numa base científica.

O mapeamento de uma bacia ou sub-bacia hidrográfica, de um distrito ou de um município, permite estudos de planejamentos de atividades rurais e urbanos, com determinação do uso e ocupação do solo, indicando as áreas mais propícias à exploração agrícola, pecuária ou florestal, previsão de safras e planejamento urbano (8).

Nesse contexto, desenvolveu-se a presente pesquisa, com a finalidade de se realizar o levantamento físico conservacionista do Ribeirão Lavapés, Botucatu, SP, para servir como subsídio no planejamento do crescimento do município de Botucatu (SP).

Materiais e métodos

O Ribeirão Lavapés, situada em Botucatu, Estado de São Paulo, Brasil, é de grande importância para o município, pois ela nasce e desemboca no próprio município, além de conter a área urbana. Está localizada entre as coordenadas geográficas: 22o 42' a 22o 56'de latitude S e 48o 20' a 48o 22' de longitude W Gr., apresentando uma área de 10.670 ha.

O clima local predominante classificado segundo o sistema de Köppen, é do tipo Cfa - clima temperado chuvoso e a direção do vento predominante é a sudeste (SE).

Os solos ocorrentes na área foram classificados como: Latossolo Vermelho-Amarelo (LVA); Latossol Roxo (LR); Latossolo Vermelho (LV) e Neossolos Quartzarênico Argissólico e Latossólico (RQ), Neossolos Litólicos (RL) e Gleissolos Háplicos (GX), segundo Oliveira et al. (9).

As unidades Neossolos Quartzarênico Argissólico e Latossólico (RQ), conforme a Oliveira et al. (9), são solos profundos, de textura muito leve, acentuadamente drenados, de cor geralmente vermelho amarelado, com seqüência de horizontes A, B e C, originados a partir de arenitos, de fertilidade baixa, ácidos e muito susceptíveis à erosão.

O conteúdo de argila é baixo, sendo menor de 15%, variando de 7,8 a 15% nos horizontes A e B, enquanto que o conteúdo de silte no horizonte B varia de 0,2 a 2,3%.

O relevo predominante é o suavemente ondulado a ondulado. Quando suavemente ondulado, as colinas apresentam declives suaves e formam vales em V abertos e, quando ondulados, as colinas ou morros são mais declivosos e os vales em V mais fechados.

A altitude varia de 420 a 740 metros, sendo nas partes altas de 600 a 740 metros e nas baixas de 420 a 600 metros.

A vegetação predominante é a do tipo cerrado e o material original é arenito.

Os Neossolos Litólicos (RL) segundo Oliveira et al. (9), são solos poucos desenvolvidos com espessura em torno de 35 cm, constituído pelo horizonte A e a camada D. Granulometricamente, apresentam o conteúdo de argila em torno de 46,7%, sendo a fração silte muito baixa, em torno de 2,1%.

Estes solos ocupam os topos das elevações, distribuídos em pequenas manchas esparsas, sendo o relevo forte ondulado de topos arredondados, vertentes convexas, vales em V com declive em torno de 40% e a altitude em torno de 700 metros.

O clima predominante é o do tipo Cfa e o material original é o basalto, metáfiro e provavelmente diabásico (eruptivas básicas).

A vegetação nativa predominante nestes solos é a floresta latifoliada tropical.

As áreas mapeadas por Oliveira et al. (9) como pertencentes à unidade de solo Latossolo Vermelho-Amarelo (LVA) se caracterizam por serem solos profundos, de textura leve, bem drenados, de coloração vermelho amarelo, formados a partir de arenito, ácidos, de baixa fertilidade, de pequenas variações nas características, fazendo com que os vários sub-horizontes se apresentem pouco individualizados, com transição variando de gradual a difusa.

A composição granulométrica deste solo apresenta o conteúdo de argila entre 15 a 30%, nos horizontes A e B, sendo geralmente o teor de argila no horizonte C menor que no B.

Estes solos localizam-se na região do alto planalto, onde formam manchas contínuas entrecortadas por solos de outras unidades. Geralmente encontram-se nas superfícies dos espigões, que podem ser estreitas ou muito largas, apresentando uma topografia suavemente ondulada com pendentes de centenas de metros, ou completamente plana e, muito raramente, ondulada e mesmo assim de pendentes alongadas.

A altitude varia de 500 a 1000 metros, estando a sua maior parte entre 600 a 900 metros.

A cobertura vegetal é variável, apresentando nas partes altas campo limpo, campo cerrado e cerrado, nas partes baixas é mais fina e de arbustos tortuosos, mas predominando campo cerrado e nas transições apresenta capoeira e cerradão quando a unidade vizinha é TERRA ROXA ESTRUTURADA, contudo os arbustos do cerrado são mais eretos e vigorosos.

O clima predominante para esta unidade de solo é o Cfa, com índice pluviométrico variando de 1100 a 1700 mm.

O material de origem desses solos é constituído por arenito de Botucatu, arenito de Furnas e possivelmente sedimentos do terciário.

As características das três unidades de solo principais são apresentadas no quadro 1.

Foram utilizadas as fotografias aéreas pancromáticas provenientes das coberturas aerofotogramétricas do Estado de São Paulo, realizadas em 1962, na escala nominal aproximada de 1:25000, com recobrimento longitudinal de aproximadamente 60% e 30% na lateral, e a imagem de satélite, obtida do sensor «Thematic Mapper»do LANDSAT 5, em escala 1:50000, órbita 220, ponto 76, quadrante A, passagem de 15 de abril de 1989, nas bandas 3, 4 e 5, correspondentes às regiões do espectro visível, do infravermelho próximo e do infravermelho médio, para elaboração do mapa de uso da terra de 1989, tendo-se como referência cartográfica a Carta do Brasil, editada pelo IBGE em 1969, referente ao município de Botucatu. O mapeamento e a identificação das unidades de solo foram obtidos a partir do mapa pedológico do Estado de São Paulo, em escala 1 : 500000, editado por Oliveira et al. (9).

As coberturas vegetais foram obtidas visualmente em imagem de satélite, escala 1:50000, órbita 220, ponto 76, quadrante A, passagem de 15 de abril de 1989, nas bandas 3, 4 e 5, correspondentes às regiões do espectro visível, do infravermelho próximo e do infravermelho médio; depois, foram identificados e delimitados, visualmente, os limites das áreas cobertas com florestas e capoeiras, reflorestamentos, pastagens, culturas agrícolas, áreas construídas e urbanizadas e açudes, barragens e outros transferindo-se, em seguida, esses elementos de interesse para uma folha de papel de polyéster Terkron D - 50 mícrons.

Quadro 1. Características das três principais unidades de solo ocorrentes nas 10 microbacias do Ribeirão Lavapés, Botucatu, SP, segundo Oliveira et al. (1999).
 

Características

LVA

RL

RQ

Localização

Município de Botucatu

Município de Botucatu

Município de Botucatu

Rocha

Grupo Bauru

Formação

Pirambóia

Textura

arenito

Arenito

Arenito

Clima

Cfa

Cfa

Cfa

Relevo

Suavemente ondulado

Forte ondulado

Suave ondulado

Profundidade

Muito profundo

Baixa profundidade

Muito profundo

Drenagem interna

Fortemente drenado

Moderadamente drenado

Excessivamente drenado

Textura horizonte A

Média

Barro 

Arenosa

Textura horizonte B

Média

-

Arenosa

Estrutura horizonte B

Maciça porosa

-

Maciça

Retenção de água

Média a baixa

Baixa

Baixa a média

Erodibilidade

Baixa

Muito susceptível

Baixa

Fertilidade

Baixa a muito baixa

Alta

Muito baixa a baixa

A observação estereoscópica dos pares de fotografias aéreas verticais foi realizada com o auxílio do estereoscópio de espelho marca Wild, modelo ST-4, e a transferência dos elementos de interesse decalcados das fotos para o mapa-base, foi efetuada com a ajuda do Aerosketchmaster Carl Zeiss, Yena.

Inicialmente, fez-se uma montagem de todo o conjunto de fotografias aéreas verticais de 1962, correspondentes à área da microbacia do Rio Lavapés, para se ter uma visualização, sendo, em seguida, traçadas a linha de vôo e a delimitação da área efetiva, conforme Coelho (5). Com o auxílio da estereoscopia decalcaram-se, em filme de polyéster Terkron D - 50 mícrons, a rede de drenagem da microbacia do Ribeirão Lavapés e o limite das 10 microbacias hidrográficas de terceira ordem de ramificação.

A densidade de drenagem (Dd) conforme Christofoletti (6) e Rocha (11) é dada pela expressão: Dd = S1n 1( R, C, T)/A, em que: Dd = densidade de drenagem em km/ha; S1n l(R, C, T)= somatório dos comprimentos das ravinas (R), canais (C) e tributários (T) em km e A = área da microbacia em ha.

Na análise das áreas de conflito de uso da terra utilizaram-se, entre os parâmetros ambientais empregados para estudo de microbacias hidrográficas, a densidade de drenagem (Dd), a declividade média (H) e o coeficiente de rugosidade (CR) parâmetro este empregado como indicador determinante da aptidão de uso da terra.

A Carta do Brasil, editada pelo IBGE (1969), em escala 1:50000, referente ao Município de Botucatu, foi utilizada para extração das curvas de nível das 10 microbacias, objetos de estudo, sendo a declividade média (H) das microbacias hidrográficas de terceira ordem de ramificação calculada pela expressão proposta por Horton (1914): H = 100 . D . L/A, em que H = declividade média da bacia em %, D = eqüidistância vertical das curvas de nível em km, L = comprimento total das curvas de nível da bacia em km e A = área total da microbacia em km2.

O coeficiente de rugosidade (CR) por ser um parâmetro que direciona o uso potencial das terras rurais quanto às suas características para atividades de agricultura, pecuária e silvicultura, com reflorestamento ou para preservação permanente, foi usado para definir as quatro classes de uso da terra das dez microbacias hidrográficas de terceira ordem de ramificação do Ribeirão Lavapés, Botucatu, SP, que são: A (menor valor de CR) - terras apropriadas à agricultura; B - terras adequadas à pecuária; C - terras acomodadas à pecuária e ao reflorestamento e D (maior valor de CR) - terras apropriadas à floresta e ao reflorestamento. Conforme Rocha (11) o coeficiente de rugosidade (CR) é definido pela expressão: CR = Dd . H, sendo: Dd = densidade de drenagem e H = declividade média.

As áreas de interesse foram avaliadas através do Software SPLAN - Sistema de planimetria digitalizada (12).

Resultados e discussão

O quadro 2 mostra que as 10 microbacias são constituídas de 95,55% de solo LVA 46,56%), RQ (19,86%) e LV (29,13%), ficando os outros 4,45% restantes para as classes de solo, respectivamente, GX (0,55%) e RL (3,90%). As microbacias 1, 2, 3, 4 e 5 eram compostas, em média, de 93,13% da unidade de solo LVA. Esses solos (LVA, RQ e LV) apresentam topografia suavemente ondulada, textura leve, bem drenados, profundos, baixa resistência à erosão, fertilidade baixa a muito baixa.

As microbacias 6, 7, 8, 9 e 10 (quadro 2), constituídas, em média de 33,23% de solos de baixa fertilidade (RQ) e 57,87% de solos de alta fertilidade (LV). Segundo Oliveira et al. (9) a unidade de solo RQ é solo profundo, textura muito leve, drenagem acentuada, fertilidade baixa, ácidos, muito susceptíveis à erosão e relevo suavemente ondulado, enquanto a unidade de solo LR que apresenta textura média, drenagem moderada, profundidade média, resistência média à erosão, alta fertilidade e relevo suave.

A declividade média (20,89%) e o coeficiente de rugosidade das dez microbacias da bacia do Ribeirão Lavapés, Botucatu, SP (quadro 3) indicam que esta tem vocação principal para o uso de pecuária, sendo o relevo classificado como ondulado. As declividades médias para as microbacias 5 (17,38%), 8 (17,86%) e 9 (16,70%) permitem classificá-las juntamente com o coeficiente de rugosidade (Classe A) para utilização de agricultura e de urbanização.

Quadro 2. Porcentagens relativas das unidades de solo ocorrentes nas dez microbacias do Ribeirão Lavapés, Botucatu, SP.
 

Bacia

LVA

RQ

LV

GX

RL

1

92,54

7,46

 

 

 

2

75,06

24,94

 

 

 

3

100,00

 

 

 

 

4

100,00

 

 

 

 

5

98,03

 

1,97

 

 

6

 

17,49

76,97

5,54

 

7

 

69,81

30,19

 

 

8

 

15,38

45,67

 

38,95

9

 

63,47

36,53

 

 

10

 

 

100,00

 

 

Média

46,56

19,86

29,13

0,55

3,90

Quadro 3. Área, densidade de drenagem, declividade média, coeficiente de rugosidade e classificação para uso da terra das dez microbacias do Ribeirão Lavapés, Botucatu, SP.
 

Microbacia

Área (A) em ha

Densidade de drenagem (D) em km/ha

Declividade média (H) em %

Coeficiente de rugosidade (CR)

Classe

1

242,700

0,02101

22,09

0,46411

B

2

576,701

0,02119

27,39

0,58039

C

3

544,482

0,02819

25,83

0,72815

D

4

468,807

0,02368

20,99

0,49704

C

5

443,752

0,01487

17,38

0,25844

A

6

304,895

0,01706

23,21

0,39596

B

7

194,895

0,02591

18,63

0,48270

C

8

1023,451

0,01544

17,86

0,27576

A

9

262,818

0,01275

16,70

0,21293

A

10

139,601

0,02149

18,77

0,40337

B

Média

420,210

0,02017

20,89

0,43011

B

Os valores de declividade média para as microbacias 1 (22,09%), 6 (23,21%) e 10 (18,77%) e o coeficiente de rugosidade (Classe A)indicam como uso do solo, para fins de pecuária e de reflorestamento. Enquanto, que os valores de declividade média para as microbacias 2 (27,39%), 4 (20,99%) e 7 (18,63%) e o coeficiente de rugosidade (Classe C) permitiram classifica-las para exploração de pecuária e reflorestamento.

A microbacia 3, a única classificada pelo coeficiente de rugosidade como classe D e pela sua declividade média (25,83%) deve ser explorada exclusivamente com reflorestamento.

A área urbanizada, referente à cidade de Botucatu, foi de 31,55% (quadro 4). As florestas e capoeiras, principalmente nas microbacias 2 e 6, foi considerável, uma vez que estas áreas apresentaram, respectivamente, 10,09% e 13,47% . Já, nas microbacias 6 (35,32%), 7 (37,18%), 8 (74,37%) e 9 (45,25%) as culturas agrícolas foram mais significativas.

As áreas ocupadas com açudes, barragens e outros, foram consideráveis na microbacia 7 (12,69%). O volume de água na microbacia 7 foi decorrente, sem dúvida, da construção de barragens de terras, para atender sobretudo à pecuária leiteira. Consideraram-se apenas essas ocupações, uma vez que, em imagem de satélite, seja ela pancromática ou colorida, na interpretação visual torna-se difícil diferenciar algumas coberturas vegetais, devido à pequena escala da imagem orbital, à sua resolução espacial e ao processamento fotográfico.

Quadro 4. Porcentagens relativas ao uso da terra das dez microbacias do Ribeirão Lavapés, Botucatu, SP.
 

 

Ocupaçao do solo

Microbacia

Florestas e capoeiras

Reflorestamento

Pastagens naturais

Culturas agrícolas

Áreas construídas e urbanizadas

Açudes, barragens
e outros

1

1,85

-

64,15

2,45 31,55

-

 

2

10,09

10,91

77,88

1,12

-

-

3

8,29

-

63,56

6,64

20,12

1,39

4

9,28

3,05

76,14

-

11,53

-

5

1,32

4,76

81,07

8,45

4,40

-

6

13,47

-

51,21

35,32

-

-

7

5,24

-

44,89

37,18

-

12,69

8

3,75

1,52

19,71

74,37

-

0,65

9

0,31

-

46,03

45,25

3,11

5,30

10

2,09

-

85,52

8,43

-

3,96

Média

5,57

2,02

61,02

21,92

7,07

2,40

A ocorrência dos conflitos pode ser observada pelo uso atual da terra, contrário à tendência definida a partir do coeficiente de rugosidade nas dez microbacias hidrográficas de terceira ordem de ramificação, estudadas na microbacia hidrográfica do Rio Lavapés, Botucatu; por outro lado, mostra os resultados obtidos para a área a ser reflorestada, atendendo às exigências legais do Código Florestal, lei nº 4.771 de 15/09/65, alterada pelas leis 7.803 de 18/07/89 e 7.895 de 13/11/89 e as recomendações técnicas em função da declividade média de cada bacia, com a finalidade de protegê-las contra a erosão (11).

Na região, a pecuária é desenvolvida de forma extensiva com pastagens de baixa qualidade e os produtores não costumam efetuar correções do pH (calagem) e nem adubação de manutenção para melhorar a qualidade desse alimento. Como a conservação do solo é uma prática agronômica pouco utilizada pelos pecuaristas, conseqüentemente os solos, que por natureza são pobres, acabam sofrendo com a ação das intempéries, acarretando assoreamentos no Ribeirão Lavapés e a diminuição da capacidade de suporte da vegetação para o gado advindo, como conseqüência, a queda na produção leiteira. A deterioração média ambiental da microbacia do Ribeirão Lavapés foi de 69,46% (quadro 5) levando a crer que a área de pecuária, como conflito, é o indicador direto desse alto grau de deterioração, grau este muito acima do limite aceitável, que é de 10%, se gundo recomendação da FAO. O grau de deterioração ambiental vem evidenciando cada vez mais a diminuição da qualidade do meio ambiente por parte do ser humano. O uso inadequado das terras tem causado permanentes prejuízos ao solo e à vegetação, podendo estar contribuindo com o baixo nível socioeconômico dos proprietários rurais da região de Botucatu.

O uso inadequado das terras, as declividades médias acentuadas nas microbacias e o desmatamento desordenado, a que outrora foram submetidas essas áreas, sugerem que todas as bacias precisam ser repovoadas de 39,9% a 50% com reflorestamento., pois a quantidade de matas remanescentes, mesmo sendo pequena atualmente, vem diminuindo ao longo dos anos (2).

Os desmatamentos agridem o solo, deixando-o descoberto e sob a ação das chuvas aparecendo, em conseqüência, as erosões e a lixiviação dos elementos nutritivos essenciais à sobrevivência das plantas. Desta maneira, o uso do solo deve ser realizado de forma racional, adequado e não agressivo ao meio ambiente.

As altas declividades médias presentes nas dez microbacias e o desmatamento ao qual a área da microbacia foi submetida, cujos dados se pode constatar através dos valores observados na quadro 3, principalmente para as microbacias 1, 3, 5, 7 e 9, que não apresentam cobertura florestal nativa, fazem com que se conclua que essas bacias necessitam de uma complementação florestal, com florestamentos. Neste sentido,

Quadro 5. Porcentagens relativas dos conflitos, uso da terra, complementação florestal e deterioração das dez microbacias do Ribeirão Lavapés, Botucatu, SP.
 

Microbacia

Conflitos

Florestas

A reflorestar

Excesso (+) ou disponibilidade (-) em agricultura

Área a ser trabalhada para manejo 
correto da bacia

Área de deterioração por bacia

1

2,46

1,85

48,15

2,45

50,61

50,61

2

1,13

10,09

39,91

1,12

41,03

41,03

3

70,21

8,29

41,71

6,64

48,35

100,00

4

0,00

9,28

40,72

0,00

40,72

40,72

5

8,44

1,32

48,68

37,16

94,28

57,12

6

35,32

13,37

36,53

35,32

71,85

71,85

7

37,18

5,24

44,76

37,18

81,94

81,94

8

74,37

3,75

46,25

-25,02

95,60

100,00

9

45,25

0,31

49,69

-3,66

91,28

94,94

10

8,43

2,09

47,91

8,43

56,34

56,34

Média

28,28

5,57

44,43

15,70

67,20

69,46

Coelho (4) afirma que, como as derrubadas de matas naturais não são impedidas e sua regeneração é lenta, a eucaliptocultura vem atender não só às necessidades econômicas, como, também, se constitui numa forma de proteção contra a erosão no sudoeste paulista.

O quadro 4 mostra claramente que todas as microbacias necessitam ser florestadas, em média na ordem de 46,89% e de 44,43% para atingir a recomendação técnica de 50% de cobertura florestal, como meta para a proteção e manejo da bacia, de forma mais racional e adequada procurando-se, desta forma, protegê-la contra a erosão e, em conseqüência, melhorando as condições ambientais.

Analisando-se os resultados pertinentes ao parâmetro de controle ambiental Coeficiente de Rugosidade verificou-se que as microbacias 5, 8 e 9 tiveram o dimensionamento de uso potencial da terra classificado como Classe A, ou seja, terras adequadas para uso com agricultura e urbanização, enquanto as microbacias 1, 6 e 10 foram classificadas como Classe B, isto é, apropriadas para uso com pecuária, sendo que as microbacias 2, 4 e 7 foram indicadas como Classe C, ou seja, para cultivo com pecuária e reflorestamento; somente a microbacia 3 foi classificada como Classe D, isto é, terras favoráveis ao uso com florestamento.

O coeficiente médio de rugosidade para as dez microbacias hidrográficas de terceira ordem de ramificação permitiu classificar a bacia do Ribeirão Lavapés como Classe B, isto é, terras propícias ao uso com pastagens, o que concorda com os dados regionais, pois mesmo sendo mau conduzida, a pecuária bovina de leite tem certa predominância na região.

A declividade média da microbacia (20,89%) permitiu classificá-la como relevo acidentado, segundo critérios preconizados por Chiarini & Donzeli (3); no entanto, 62,95% da área total das bacias apresentam topografia recomendável ao uso agrícola, com culturas anuais, pois são áreas de solo favoráveis à mecanização, sendo este relevo classificado por Chiarini & Donzeli (3) como plano ondulado. Do restante da área, 27% apresentam topografia bastante acentuada, predominando declividade íngreme, indicando que a atividade agrícola deve ser considerada uma prática de risco, pois se não houver práticas conservacionistas adequadas, as bacias poderão sofrer grandes perdas por erosão.

As microbacias 3 e 9 com 100% de deterioração apresentavam, respectivamente, áreas conflitantes da ordem de 70,27% e 74,37%, ou seja, áreas com terras usadas inadequadamente, sem planejamento, provocando baixa produtividade, e empobrecimento dos solos.

A microbacia 5 classificada, segundo o coeficiente de rugosidade, como propícia ao uso da agricultura, a área a ser utilizada para o manejo correto é de 94,28%, incluindo-se aí as áreas excedentes em agricultura, conflitantes e a reflorestar.

As microbacias 8 e 9 classificadas, conforme o seu coeficiente de rugosidade, como Classe A, ou seja, terras apropriadas à agricultura, apresentaram 25,02% e 3,66% respectivamente, como áreas disponíveis para a agricultura, que poderão ser usadas no manejo correto dessas bacias. Como as áreas a serem manejadas nessas microbacias são, respectivamente, da ordem de 95,60% e 91,28% além das áreas disponíveis para a agricultura, elas poderão ser utilizadas pelas áreas de conflito e a florestar.

As microbacias 1, 6 e 10 classificadas, de acordo com o coeficiente de rugosidade, como Classe B apresentaram, respectivamente, áreas conflitantes e excedentes ao mesmo tempo, da ordem de 2,46%, 35,32% e 8,43%, porque são microbacias destinadas à pecuária, isto é, ao pastoreio do gado, áreas estas a serem trabalhadas no manejo correto das microbacias de, respectivamente, 50,61%, 71,85% e 56,34%. Incluem-se também, para o manejo correto dessas microbacias, as áreas a florestar de, respectivamente, 48,15%, 36,53% e 47,91%.

De acordo com os valores dos coeficientes de rugosidade das microbacias 2, 4 e 7, estas foram classificadas como Classe C, ou seja, terras propícias à pecuária e ao florestamento; já as microbacias 2 e 7 apresentaram 1,13% e 37,18% de áreas conflitantes, pois a microbacia 4 não apresentou área conflitante. Para o uso correto dessas três microbacias, a área a ser trabalhada é da ordem de 41,03%, 40,72% e 81,94% incluindo-se, neste caso, as áreas excedentes em agricultura, de 1,12% na microbacia 2 e de 37,18% na microbacia 7, sendo que na microbacia 4 não houve área excedente em agricultura e as áreas a florestar foram de 39,91% na microbacia 2, de 40,72% microbacia 4 e de 44,76% na microbacia 7.

A única microbacia classificada como Classe D, isto é, terras favoráveis para florestamento, foi a microbacia 3, que apresentou 48,35% como área a ser trabalhada para o manejo correto, sendo a área conflitante correspondente a 70,21% incluindo-se, no manejo correto, as áreas a florestar de 41,71% e as excedentes em agricultura de 6,64%.

As 10 microbacias hidrográficas de terceira ordem de ramificação do Ribeirão Lavapés, Botucatu, SP, apresentaram baixo índice de cobertura florestada, da ordem de 0,31% a 13,37%, cuja média entre elas foi de 5,57%, abaixo do índice preconizado pela FAO, de 25%.

As microbacias 1 (1,85%), 5 (1,32%), 8 (3,75%), 9 (0,31%) e 10 (2,09%) apresentaram, em média, 1,86% de área coberta com floresta, enquanto as microbacias 2 (10,09%), 3 (8,29%), 4 (9,28%), 6 (13,37%) e 7 (5,24%) ainda contêm, em média, 9,25% de cobertura florestal; metade, portanto, das microbacias utilizadas no presente estudo apresentam, em média menos de 2% de área coberta com florestas, sendo que nas outras a cobertura florestal é, em média, pouco mais de 9%.

O grau de deterioração, parâmetro utilizado no controle ambiental, para as 10 microbacias foi, relativamente alto (69,46%), isto é, variou de 40,72% a 100%, muito acima do limite aceitável de 10, segundo recomendação da FAO. O grau de deterioração, de 69,46%, vem ocorrendo em virtude do mau uso da terra, principalmente pela pecuária, atividade predominante na região, e pelos desmatamentos desordenados, principalmente em solos com boa fertilidade e de condições ecológicas mais adaptadas à exploração econômica, sendo até hoje os solos mais pobres utilizados em função do aumento populacional e do avanço tecnológico agronômico. As florestas, além de estarem diminuindo lentamente na região, no Estado de São Paulo, no Brasil e no Mundo, vêm-se deteriorando qualitativamente, sendo preocupante quando se pensa em conservação e melhoria dos recursos naturais renováveis.

As florestas, segundo o INCRA eram, em 1985, da ordem de 13,9% no Estado de São Paulo; atualmente, este valor é menor ainda, pois os desmatamentos continuam ocorrendo e, neste sentido, Campos et al. (2) constataram a presença de apenas 3,2% de cobertura por floresta na microbacia do Ribeirão Lavapés, Botucatu.

A atividade de florestamento poderá até ser ampliada em algumas microbacias visto que, segundo alguns pesquisadores, esta cobertura vegetal atende às necessidades no controle de erosão, isto é, se os pecuaristas não optarem por práticas agronômicas utilizadas para o bom desenvolvimento da pecuária.

Conclusões

De acordo com a metodologia utilizada e com os resultados obtidos para o estudo proposto foram possíveis concluir que: as imagens do Sensor TM do LANDSAT 5, permitiram o mapeamento do uso da terra da bacia de maneira rápida, além de fornecer um excelente banco de dados para futuros planejamentos nessa área; o levantamento físico conservacionista permitiu mostrar que o grau de deterioração físico ambiental para a microbacia do Ribeirão Lavapés, Botucatu, SP, de 69,46%, foi muito acima do limite de 10% aceitável, segundo recomendação da FAO; o parâmetro ambiental «coeficiente de rugosidade», para a microbacia do Ribeirão Lavapés, Botucatu, SP, permitiu indicar que a vocação principal é para uso com pecuária (Classe B) e as 10 microbacias de terceira ordem de ramificação apresentaram-se, na sua maior parte, compostas pelas unidades de solo LVA e RQ, solos de baixa a muito baixa fertilidade.

Literatura consultada

1. Campos, S. 1993. Fotointerpretação da ocupação do solo e suas influências sobre a rede de drenagem da bacia do Rio Capivara Botucatu, SP, no período de 1962 a 1977. Tese de Doutorado. Faculdade de Ciências Agronômicas. Brasil. 164p.         [ Links ]

2. Campos, S., J.A. Tebet, L.G. Cardoso, Z.X. Barros de. 1993. Modificação da paisagem na bacia do Rio Lavapés Botucatu, SP, de 1977 a 1989. Congresso Brasileiro de Engenharia Agrícola. Brasil. (23) .319-328.         [ Links ]

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