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Paradígma
versão impressa ISSN 1011-2251
Paradígma vol.37 no.2 Maracay dez. 2016
Enseñanza, investigación y extensión: afectos de la educación básica
Josineide Silveira de Oliveira
Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN/Brasil)
Thiago Isaias Nóbrega de Lucena
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN/Brasil)
Resumen
La educación básica es el primero nivel de formación ofrecido a los estudiantes brasileros entre los 4 e 17 años de vida. Centrada en la enseñanza, esta etapa formativa carece de complementariedad con la investigación y la extensión, pilares comúnmente puestos en acción apenas en la enseñanza superior. El artículo sugiere que el trato de estas 3 bases debe ser impulsado por 3 afectos: plasmar la admiración, temperar las sospechas, transitar de las ideas al gesto. Esos afectos del conocimiento mueven la potencia de alegría para favorecer la profundización de saberes, la apertura de caminos para el bien pensar y la viabilidad de la promoción de diálogos fructíferos. Tal comprensión prima por hacer de la escuela un Ágora abierta movida por la democracia cognitiva, acostumbrada a la diversidad de saberes y al pluralismo de ideas; plenaria constante contra la ceguera y la rigidez del pensamiento; foro permanente de formación del sujeto responsable.
Palabras clave: Educación básica. Enseñanza. Investigación. Extensión.
Ensino, pesquisa e extensão: afectos da educação básica
Resumo
A educação básica é o primeiro nível de formação oferecido aos estudantes brasileiros na idade dos 4 aos 17 anos. Centrada no ensino, essa etapa formativa carece de complementaridade com a pesquisa e a extensão, pilares comumente postos em ação apenas no ensino superior. O artigo sugere que o trato dessas 3 bases deve ser impulsionado por 3 afectos: plasmar a admiração, temperar as suspeitas, transitar das ideias ao gesto. Esses afectos do conhecimento movem a potência da alegria para favorecer o aprofundamento de saberes, a abertura de caminhos para o bem pensar e a viabilidade da promoção de diálogos frutíferos. Tal entendimento prima por fazer da escola uma Ágora aberta movida pela democracia cognitiva, afeita à diversidade dos saberes e ao pluralismo de ideias; plenária constante contra a cegueira e a rigidez do pensamento; fórum permanente de formação do sujeito responsável.
Palavras chave: Educação básica. Ensino. Pesquisa. Extensão.
Teaching, research and extension: basic education affections
Abstract
The basic education is the first level formation offered to brazilian students in the age of 4 until 17 years old. Focused in teaching, this formative stage lacks of complementarity with research and extension, pillars that generally are used only in college. The article suggests that the usage of these three basis must be driven by three affections: mold the admiration, moderate suspection, transit from ideas to motion. These affections of cognition move the power of happiness to favour the increase ok knowledge, the opening of paths to good thinking and viability to promotion of fruitful dialogue. Such understanding highlights school as an opened Ágora, moved by cognitive democracy, used to the diversity of knowledge and the pluralism of ideas; constant plenary against the blindness and the rigidity of thought; permanent forum of formation of a responsible subject.
Keywords: Basic education. Teaching. Research. Extension.
Recibido: 02 de agosto de 2016 Aprobado: 19 de octubre de 2016
Introdução
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional º 9.394/96 é composta por dois níveis de formação escolar: educação básica e educação superior. Existe consenso no meio acadêmico de que o ensino, a pesquisa e a extensão são pilares da educação superior. É mais praticamente apenas nesta etapa da caminhada educacional que se fomenta esse tripé formativo. Advoga-se neste texto que o ensino, a pesquisa e extensão devem ser pilares para todo processo de construção de conhecimento desenvolvido pelas instituições de formação de estudantes, mesmo nos anos de Educação Básica que compreende os primeiros anos de estudo do educando na faixa etária dos 4 aos 17 anos. O nível básico está dividido em Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Sem desconsiderar os objetivos de cada uma dessas fases, a Educação Básica deve oferecer um ensino capaz de cuidar para o desenvolvimento de habilidades e competências que propiciem o conhecimento a respeito do ambiente natural e social, das noções preliminares de politica e tecnologia e da construção de conceitos de ética e cidadania. Observa-se que o desenvolvimento dessas habilidades e competências exige mais que ensino. Associados a este, entende-se como imperativo nos primeiros anos de formação escolar os exercícios da Pesquisa e da Extensão para fazer desabrochar no educando as potencialidades de sujeito crítico e responsável.
A didática pelos afectos
Se ensinar constitui-se na arte de indicar caminhos de acesso ao entendimento; um de despontar da razão; uma instrução para o discernimento, pesquisar consiste em responder a afetos que se apresentam como problematização ao sujeito cognoscente impelindo-o ao espanto, à admiração e ao despontar de uma atitude ética. O ato de pesquisar mobiliza corpo e mente, recruta a inteireza para o enfrentamento de questões encravadas na existência. Olhar para a vida com aptidão de pesquisador significa compreende-la como um laboratório sem paredes. Viver é uma experiência! Construir conhecimento sobre essa arrisca experiência já nos primeiros anos de estudos é um dever da escola. Restringir a pesquisa a educação superior é entende-la como um requinte só concedido aos detentores de certos detentores de diplomas. Um mundo inteiro é espaço de busca e descoberta. Como igual dever formativo insurge a Extensão, fluxo projetivo que alimentado pelo ensino e a pesquisa revela-se para além dos muros da escola como prática de cidadania e humanismo, exemplos de tolerância e respeito ao diferente. A extensão faz jus ao exercício de enraizamento do olhar no chão dos problemas e potencialidades do meio circundante do sujeito. Assim pensando, é imperioso ver a indissolubilidade entre o ensino, a pesquisa e a extensão como alicerce da formação de crianças e jovens. Para além do investimento racional estes procedimentos devem ser transformados em afectos instigantes à cognição, que por sua vez deve dirigir-se para o bem viver. Pascal Sévérac (2009) recupera o filosofo Baruch Spinoza (1632-1677) para afirmar que o esforço humano dispensado à construção do conhecimento só justifica-se pela finalidade ética. São os afectos que movem o espírito.
A essência do corpo humano define-se, em Spinoza, por sua aptidão a ser afetado e afetar. Ora, quanto maior essa aptidão afetiva, maior é a capacidade da mente de pensar várias coisas simultaneamente, e, por conseguinte, de compreender-lhes as relações de conveniência, diferença e oposição. Um corpo ativo não é, pois, um corpo que consegue tornar-se insensível ao mundo, que chegaria a furtar-se ao determinismo das causas exteriores. (SÉVÉRAC, 2009, p. 23).
Os caminhos da aprendizagem devem ser sinalizados pela vontade de aprender, desperta e manifesta constantemente em professores e alunos que experimentam o prazer de conhecer e da potencia do agir. O cultivo desse prazer deve ser estimulado por três disposições que não obedecem hierarquia, mas complementaridade: (1) plasmar a admiração, (2) temperar as suspeitas e (3) transitar das ideias ao gesto.
1. Plasmar a admiração
O ensino nos primeiros anos de formação escolar supõe um estado de atenção equivalente ao de uma espreita laboratorial na qual se estimula a curiosidade e torna possível a plasticidade do estudo mediante os conteúdos escolares. Significa plasmar a admiração por meio da fixação do olhar que conduz ao aprofundamento do assunto no intuito de descobrir a complexa relação que circunda a temática. Toda aula é um acontecimento especial que embora esteja prevista no esquema planejado, ultrapassa a expectativa e transforma-se em oportunidade única de tratar informações que se transformam em conhecimentos para toda a vida. A aula deve suscitar uma apurada reflexão capaz de expor o grau de implicação entre os sujeitos do estudo e problemática em tela permitindo que todos compreendam o porquê daquela abordagem. Expõem-se contornos de uma justificativa anunciadora dos limites entre o interesse individual e a relevância do estudo. Convém valer-se das palavras de Edgar Morin (2003, p. 55-56)
Do conhecendo-te a ti mesmo socrático, passamos ao conhece-te a ti mesmo conhecendo. Nesse sentido o método implica reaprender a aprender num caminhar sem meta definida de antemão. Reaprender a aprender com a plena consciência de que todo conhecimento traz em si mesmo e, de forma inalienável, a marca da incerteza. Não se trata de uma ode ao vale-tudo, nem ao ceticismo generalizado, mas de uma luta contra o absolutismo e o dogmatismo disfarçados de verdadeiro.
Na Educação Básica a escola apresenta-se como um primeiro repositório de conteúdos, através do qual o aluno tem acesso a um saber sistematizado. O professor como porta-voz desse saber, disponibiliza-o por meio de artifícios pedagógicos capazes de esculpir na alma discente marcas da cultura. O professor é um porta-voz da cultura e começa essa investida com um bom planejamento atinente às recomendações dos sistemas de ensino, mas, sobretudo, em consonância com o Projeto Pedagógico da escola no qual está desenhado o perfil do alunado. O planejamento deve antever a possibilidade do exercício da interdisciplinaridade pelo qual o dialogo dos componentes curriculares contribui para a construção do conhecimento transdisciplinar, aquele que transcende os limites disciplinares e constitui-se como patrimônio cognitivo de cada sujeito. Atento a tais recomendações, o docente deve mirar a trajetória de cada aluno para ajuda-lo na aprendizagem de si e do contexto em que está inserido, pois é no curso individual, com seus dramas e esperanças que cada um constrói-se como sujeito. Juntos docentes e discentes arquitetam a estética de pensar e agir. Parafraseando a memorável frase de René Descartes (1596-1650), Jorge Wagensberg remete para o universo do ensinar e aprender: Penso, logo existo. Muito bem. Mas pensar não basta para conhecer. Para conhecer é preciso que haja alguém mais. (2010, p. 56). Esse alguém mais no ambiente escolar precisa ser o professor; aquele que pode até não ser mais o único a detentor da informação, já que a explosão midiática também atinge a sala de aula, mas certamente é aquele que ajuda a lapidá-la.
A figura do professor é determinante para a consolidação de um modelo ideal de educação. Através da Internet, os alunos podem ter acesso a todo o tipo de conhecimento sem a presença de um professor. Então eu pergunto, o que faz necessária a presença de um professor? Ele deve ser o regente da orquestra, observar o fluxo desses conhecimentos e elucidar as dúvidas dos alunos. Por exemplo, quando um professor passa uma lição a um aluno, que vai buscar uma resposta na Internet, ele deve posteriormente corrigir os erros cometidos, criticar o conteúdo pesquisado. É preciso desenvolver o senso crítico dos alunos (MORIN, 2014). Disponível em: http://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/educacao-360/a-educacao-nao-pode-ignorar-curiosidade-das-criancas-diz-edgar-morin-13631748. Acesso em 25 ago, 2016.).
O momento da aula para alunos e professores é propício à descoberta de si mesmo como um ser social consciente das responsabilidades legadas por tal descoberta. Perceber-se inscrito numa história local e universal; herdeiro do cumprimento de exigências provenientes da tripla pertença: individuo/sociedade/espécie é a vocação do sujeito no mundo. Afirma Edgar Morin (2005, p. 51-52)
O ser humano define-se, antes de tudo, como trindade individuo/sociedade/espécie: o individuo é um termo dessa trindade. Cada um desses termos contem os outros. Não só os indivíduos estão na espécie, mas também a espécie está nos indivíduos; não só os indivíduos estão na sociedade, mas a sociedade também está nos indivíduos, incutindo-lhes, desde o nascimento deles, sua cultura.
Eis o desafio da educação, ajudar no despontar do potencial de cada individuo, sem castrar-lhe as aspirações pessoais e igualmente prepara-lo de modo responsável para o enfrentamento das impertinências sociais. É no período escolar da Educação Básica que os indivíduos experimentam as angústias e os impulsos das primeiras paixões. Seja pelas discussões provocadas pelas leituras, seja pelas resoluções de questões das mais diversas ordens, a aula deve favorecer condições básicas para a autoformação; para a descoberta das implicações de ser ao mesmo tempo sapiens e demens (sábio e louco), faber e ludens (trabalhador e brincante). O confronto da criança e do adolescente com as provocações do mundo vivido impele conjugação, mesmo que tumultuada, entre a fúria dos sentimentos e as imposições da cultura. Conceber forças organizadoras do caos sentimental que invade os discentes no curso da Educação Básica exige perspicácia do professor. É ele que assume como propósito acompanhar e conduzir à transformação, paixões desordenadas em criatividades promissoras. Por outras palavras, a aula é uma oportunidade de emergência de paixões.
Conforme Spinoza (1991, p.182) Se uma coisa aumenta ou diminui, facilita ou reduz a potencia do nosso agir do nosso corpo, a ideia dessa mesma coisa aumenta ou diminui, facilita ou reduz a potência de pensar de nossa mente. (Ética, parte III, proposição 11). No cotidiano escolar vale a aposta na intensidade das paixões enquanto mobilizadoras do aprender. Longe da afirmação de que cada um deve aprender apenas o que lhe interessa, defende-se o desnudar-se gradativo das questões existenciais e sociais que recrutam respostas abastecidas no espólio do saber escolar. Com o propósito de conjugar os temas que despertam paixões com as exigências do agir ético, o professor traça estratégias de construção do conhecimento a partir da escolha do método de ensino que privilegie simultaneamente a escuta da experiência e o desdobrar da reflexão. Não se trata da ingênua discussão sobre a sistemática de ensino gira em torno do professor ou do aluno; se as aulas são expositivas ou mais interativas; se as atividades são desenvolvidas individual ou coletivamente; se as provas são elaboradas com questões objetivas ou subjetivas. Trata-se da atenção às circunstancias da aprendizagem. Do reconhecimento da complexidade a ser considerada pelos caminhos didáticos que conduzem a construção do conhecimento adequado, aqui entendido como saber emancipatório; testemunho de maturidade frente aos desafios. Para tal fim convém lembrar a observância de Jorge Wagensberg (2010 p. 68) o método científico não serve para ter ideias, sim para trata-las.. As palavras do autor alertam para os perigos do demasiado apego ao método sem contextualização o que resultaria no adormecer da sensibilidade e consequentemente no prejuízo do florescimento da intuição.
Conforme Giovane Reale (2005), Spinoza ao reconhecer o conhecimento adequado como o mais sublime dos atributos humanos, apresenta a intuição como a condição mais apurada desse procedimento. Spinoza dá-se a missão de discorrer sobre três gêneros de conhecimentos: o primeiro origina-se nas percepções sensoriais; o segundo desdobra-se pela racionalidade e do terceiro brota da intuição como fino trato da experiência e da reflexão. Consiste no reconhecimento da intuição como construtora de um pensamento ético disposto a agir corretamente ante a necessidade posta. Responder pelo ensino às exigências da intuição implica menos num estado de alerta cotidiano capaz de deixar a alma em permanente vigilância. A didática mantenedora dessa vigilância recorre menos ao planejamento rígido, fiel a um programa previamente definido e mais a um traçado de estratégias reajustadas constantemente. Essa didática bem podia ser composta tomando de empréstimo à poesia do grupo português Madredeus os versos da música O Pastor (1997)
Ao largo ainda arde
A barca da fantasia
O meu sonho acorda tarde
Deixa a alma de vigia.
2. Temperar as suspeitas
Se compreendermos o ensino como a arte de conectar saber, percebemos a impossibilidade de modula-la sem lançar mão da pesquisa e da extensão já nos primeiros anos da Educação Básica. No que toca a pesquisa, favorece o alargamento das ideias, amplia conhecimentos já construídos e aguça curiosidades. Por outras palavras, azeita o processo cognitivo. Entretanto, deve-se atentar para a complexidade da formação do jovem pesquisador no nível da Educação Básica. Para além da pura aplicabilidade de questionários, de perguntas que aguardam respostas já previstas a pesquisa nesse nível da educação é, antes, uma dinâmica de abertura da alma discente à incompletude do viver. Na lembrança do que afirma Conceição Almeida (2012b, p. 105) de que o fenômeno pesquisado continua seu fluxo, sua história, sua evolução, a pesquisa deve ser compreendida como um diálogo permanente estabelecido a partir das ressonâncias das várias respostas advindas do ensino e da extensão. Questões e descobertas sucedem-se na fluência de desordens, variações e desvios. Longe de apaziguar o pensamento da ânsia por conhecer, a pesquisa serve como um condimento de suspeitas enfraquecendo sabor da infalibilidade e da certeza que satisfaz rapidamente o apetite intelectual e confunde o espírito. Ainda conforme Almeida (2012b, p. 106) a indicação de categorias e variáveis que têm por finalidade captar a dinâmica geral e o padrão dos fenômenos estudados deve ser feita com atenção às exigências da tríade ordem-desordem-complexidade. Supõe que a ordem norteadora deve atentar para a complexidade do fenômeno cuja cadeia de determinismos e acasos suscita permanentemente o desenvolvimento de estratégias que não exclui a incerteza e a imprevisibilidade. Levar em conta a incerteza e a imprevisibilidade dos fenômenos previne contra a sensação de que pelo recorte feito, congelamos a amostra e isolamos os fenômenos estudados do seu fluxo de relações. Pesquisar é degustar a complexidade dos fenômenos.
O complexo comporta a incerteza. Em toda a complexidade existe a presença de incertezas, sejam essas incertezas empíricas ou teóricas, ou as duas dimensões ao mesmo tempo. Quanto maior a complexidade, maior o peso da incerteza. Disso decorre, pois, que o complexo é marcado pela imprevisibilidade. Justamente porque sobre ele incidem múltiplas causas, elementos diversos que interagem entre si e a aptidão para se modificar em função de eventos e informações externas, não é possível prever a tendência de um fenômeno complexo. (ALMEIDA, 2012a, p. 63-64).
Se levarmos em conta tais argumentos, a pesquisa constitui-se como antídoto contra os males da prevenção exagerada que regula demasiadamente o agir e a arrogância provocada pela força de convicções exacerbadas. São indispensáveis os investimentos estratégicos que põem à prova as respostas construídas apressadamente, os esforços de ampliação da questão, as leituras de ordem biográfica ou documental, o confronto com autores que tratam do assunto e o acolhimento de emergências que fluem no decorrer do processo investigativo. É de muito proveito o diálogo com outros pesquisadores, a análise de entrevistas, consulta a diários de campo, participação em rodas de conversa com sujeitos envolvidos com o tema e outras vias de abordagens que favoreçam a autocrítica do jovem pesquisador e o ponham face a face com as contradições. Aprender a olhar para os fluxos da vida cotidiana com perspicácia e crítica tempera a própria existência. É claro que os temperos precisam ser diversificados. Em outras palavras, as fontes de acesso à informação precisam ser plurais, múltiplas. Caso contrário o pensamento do aluno vai restringindo-se a vias explicativas únicas e polarizadas. Precisam estar atentos professores e alunos, para o fato de que neste início de século XXI as novas gerações cada vez mais têm acesso aos códigos do mundo informático, às supersínteses e informações tendenciosas ou pela metade. Ser possuidor de um banco de informações como o google por si só não confere ao professor, e menos ao estudante a necessária autocrítica da seleção das informações.
Na Educação Básica a pesquisa é dos ingredientes da construção do conhecimento que se serve permanentemente a um cardápio recheado de dúvidas. Sejam aquelas próprias da idade dos estudantes, sejam aquelas advindas dos ruídos didáticos provocados pela precariedade dos inúmeros desafios pedagógicos, as dúvidas são motivadoras da aprendizagem, pois instigam a alma a percorrer caminhos antes insondáveis. Neste sentido Edgar Morin encoraja: dúvidas e contradições [tornam-se] não esterilizantes, desencorajadoras, mas fecundas e tônicas. (1997, p. 191). Tal processo recruta a identificação de operadores cognitivos que amadureçam o pensar. Façam-no sedento! Esse cardápio bem podia ser acompanhado do ingrediente da poesia. Esse tempero que dá mais sabor a vida. Um desse tempero nos é oferecido pelo biólogo e poeta moçambicano Mia Couto (2014, p. 134)
E o menino olhou o céu
Como se antes não houvesse luz nem astro.
Surpreso
De tanta existência,
O menino deitou-se no sono
Como quem dá sombra à própria vida.
De tudo e de todos,
A morada fez-se povoar.
Mas nunca ele se sentiu repleto.
Aprendeu então
Que casa não é coisa para se ter, mas para ser.
3. Transitar das ideias ao gesto
Na disposição do trabalho de extensão como estratégia pedagógica de ampliação do conhecimento propõe-se contemplá-la como uma via de mão dupla. Por um lado os jovens estudantes alimentados pelo saber escolar, levam para a família e demais espaços de convivência dúvidas e conceitos formulados na dinâmica da didática escolar. Por outro lado, saberes externos aos muros das instituições de ensino e impõem-se no cotidiano dos alunos com tanta intensidade que, por vezes, provoca a impressão de insuficiência e incompletude do trabalho pedagógico na incumbência de educar para a vida. Mesmo que à escola seja atribuída a missão de sistematizadora de ideias e articuladora de temas que fluem em outros espaços de convivência fora do ambiente escolar, faz-se mister salvaguardar a escola do frenesi das redes sociais e da acusação de que os conteúdos por ela tratados são obsoletos ou desinteressantes. Longe de propagar a falência da escola como instituição formadora, convém peticionar a defesa de um trânsito de ideias com livre circulação por entre a diversidade das reservas de saberes que compõem a comunidade onde vivem os educandos. Elaborar projetos de extensão escolar que religuem escola e comunidade é um desafio posto à equipe pedagógica. Nessa empreitada são bem vindos intercâmbios dialogais com estabelecimentos comerciais, indústrias, associações, ONGs, movimentos sociais e expressões religiosas presentes nas comunidades. Tais intercâmbios permitem o contato com outras narrativas promissoras ao exercício de cidadania. Um bom exemplo vem de escolas que se propõem ao cuidado com áreas de preservação ambiental, limpeza de trechos de praias, rios e lagoas; da proteção da fauna e flora; do zelo com patrimônio cultural. Como seria educativa a previsão de ações de extensão que se preocupassem com abrigos de idosos! Com pessoas que vivem em situação de rua! Esse conhecimento encarnado corresponde a uma educação para a vida.
Em tempos de absolutismo midiático tanto alunos quanto professores descobrem juntos a impossibilidade de acompanhar a velocidade das divulgações de informações. A vida vista pela tela dos monitores sensíveis ao toque provoca a sensação de uma imensa distância entre os conteúdos tratados pela escola e aqueles veiculados pelas redes sociais. É bom lembrar que todo processo de construção de conhecimento, não só no âmbito escolar, padece da angústia, da sensação de inacabamento. Se observarmos a assertiva de Conceição Almeida é a propriedade do inacabamento que permite a interação com outros fenômenos, materiais e sistemas (2012a, p. 65), compreender-se-á que o ensino, a pesquisa e extensão devem conversar entre si e corresponder ao imperativo da auto-eco-organização. Mídias são canais de acesso e não remédio eficaz para a ânsia do inacabamento e da incompletude. Considerar a formação pela via da auto-eco-organização significa compreender a inserção do sujeito na sociedade a partir das relações que se estabelecem por ele, com ele e para ele.
Na perspectiva de uma educação de base complexa a construção do conhecimento alimentado pela consciência da auto-eco-organização deve ser nutrida pela convicção de que é necessário dialogar também com outras narrativas de explicação dos fenômenos como é o caso dos mitos, das religiões, dos saberes da tradição e das artes. Tal diálogo suscita uma audaciosa articulação que no dizer de Pierre Lévi (1998) seja capaz de acionar três polos do espírito expressos pela oralidade, a escrita e a cibernética. Esses polos, embora distintos, são complementares. Cada um designa um tempo do espírito a testemunhar demonstra a infinitude da inteligência. Os suportes técnicos ofertados pela cibernética não substituem as riquezas da oralidade e da escrita. O esforço de conjugação desses três polos no exercício da extensão escolar enseja o refinamento das faculdades da escuta e do olhar. Apurar a habilidade da escuta pela familiaridade com narrativas oferecidas pela oralidade ajudaria a ampliar competências para o dialogo e, por conseguinte, a capacidade de fraternizar ideias e relações. Treinar o olhar para perceber a riqueza do detalhe sem desconecta-lo da totalidade do holograma permitiria uma leitura critica do fenômeno e da diversidade de suas relações. A leitura de um livro impresso possibilita uma viagem sem pressa pelo interior da própria alma. É notória a contribuição da informática com bem nos indica Michel Serres.
Outrora e recentemente, o saber tinha como suporte o corpo do erudito, do aedo, do contador de histórias. Bibliotecas vivas: esse era o corpo docente do pedagogo. Pouco a pouco o saber se objetivou: primeiro em rolos, em velinos ou pergaminhos, suportes da escrita. Depois, a partir do Renascimento, em livros de papel, suportes da imprensa. E hoje, concluindo, na internet, suporte de mensagens e de informação. (SERRES, 2013, p. 25).
No entanto é preciso cautela para não operar por substituição de um saber por outro. Um saber pautado apenas na informática nos desconecta da nossa própria humanidade e nos condena a dependência total das maquinas. E ainda, um saber voltado para a superespecialização ou para a fragmentação é um saber pela metade. Os problemas que nos circundam e afligem: política, trabalho, economia, ecossistema, etc, são mundializados e interconectados. É insuficiente pensá-los em separado ou apenas sob um ponto de vista. É urgente operar na religação dos saberes e na reciprocidade constante entre o local e o universal. É preciso sim, guiar-se pela lógica da conjunção, ao invés da disjunção que investe na segregação dos componentes curriculares e na separação entre razão e imaginação. Mais uma vez poesia pode guiar-nos. Desta feita, é o poeta Fernando Pessoa com um trecho de Alberto Caeiro (2006, p. 43) quem nos indica um caminho:
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver o Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
Pedagogia das Paixões Alegres
Retomando as orientações de Spinoza para quem o conhecimento é o afecto que conduz o homem a uma postura ética, entende-se o ensino, a pesquisa e a extensão como afectos a serem tratados no curso da Educação Básica, mobilizadores nas crianças e jovens da dimensão política que ainda precisa ser fortalecida em vistas a formação do sujeito ético. Tal entendimento prima por fazer da escola uma Ágora aberta movida pela democracia cognitiva afeita à diversidade dos saberes e ao pluralismo de ideias. Um lugar de resistência à cegueira e a rigidez do pensamento, onde se possa investir atividades integradoras. Aulas nas quais possa estimular a curiosidade esforçando-se por transformar a admiração dos fenômenos estudados em matéria prima para a reflexão; pesquisas que respondem a obsessões cognitivas já que se assentam na compreensão de é para se entender como viajante da existência que o sapiens-demens esforça-se para conhecer as coisas do mundo; projetos de extensão que abrem a escola à comunidade, pois é lá, o lugar imediato da intervenção social.
O ensino, a pesquisa e a extensão tornam-se afetos do conhecimento quando integrados entre si. É essa que entendemos se uma escola que funciona em tempo integral. Para além do aumento de dias letivos uma instituição de ensino que aprofunda saberes, abre caminhos para o bem pensar e possibilita diálogos frutíferos, efetiva uma pedagogia das paixões alegres. Se a Pedagogia é a arte pela qual comtempla-se os ideais da formação de uma sociedade, então se pode dar uma pedagogia das paixões alegres o crédito de inserção do amor na racionalidade do viver. O amor é uma virtude diriam André Comte-Sponville (1995) e o apóstolo para nos lembrar que o amor como virtude precisa se cultivada contínua e sistematicamente. Essa é uma tarefa só possível pela educação. O amor! Conhecimento da perfeição e ânsia dos mortais insiste o apóstolo (1Cor, 13). Inquietude permanente por conhecer o que é o bem, diria Spinoza (1991). Desassossego da alma versaria Luís Vaz de Camões (1524-1580). Convergência do divino com o humano cantaria Renato Russo (1960-1996). Aprender o amor e pelo amor, eis as bases da educação do sujeito responsável.
É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece
O amor é o fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua do anjos
Sem amor eu nada seria
Referências
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