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Paradígma

versão impressa ISSN 1011-2251

Paradígma vol.37 no.2 Maracay dez. 2016

 

Más allá del pensamiento domesticado: Reflexiones sobre docencia y educación superior en el contexto de la salud

João Bosco Filho

boscofilho38@gmail.com

Universidade do Estado do Rio Grande do Norte/

Faculdade Maurício de Nassau – Brasil/RN.

Marilissa Maciel Maineri

enfermagem.nat@mauriciodenassau.edu.br

Faculdade de Maurício de Nassau – Brasil/RN

Rosângela Symara Lima Araújo

rosasymara@yahoo.com.br

Universidade Potiguar/Faculdade de Maurício de Nassau – Brasil/RN

Resumen

En el campo de la educación superior, especialmente en el contexto de la salud, el énfasis ha sido la obtención de reflexiones sobre el fracaso de los modelos tradicionales de educación a través de los paradigmas educativos emergentes, trayendo como consecuencia inmediata de la necesidad de revisar el proceso educativo, así como reflexionar sobre la postura educadores hoy. En este sentido, el estudio tiene como objetivo discutir la educación superior en la salud, ya demostrar la importancia de un nuevo maestro, capaz de colaborar con la construcción de sujetos preparados para actuar crítica y reflexiva frente a la realidad de la salud en que se encuentran insertado. Los estudios demuestran que las estrategias de cambio que tienen lugar en el espacio de formación en salud, apuntan a la necesidad de superar una formación técnica, especialmente en lo que se refiere a la necesidad de darse cuenta de que el ser humano ya no se caracteriza por la mente y el cuerpo de separación, la razón y la emoción, la objetividad y la subjetividad, entre otros disyunción que procesa humano. Es importante destacar que esta mirada se extendió a la educación superior en el contexto de la salud y el maestro debe estar presente en los proyectos pedagógicos de formación en universidades brasileñas, lo que demuestra que las ciencias de la salud han comenzado a ser parasitadas por un ideal de cambio, el cual tiene interdisciplinariedad, la base para pensar su transformación.

Palabras clave: Educación Superior. Formación en Salud. Complejidad.

Apart from tame thought: reflections on teaching and higher education in the context of health

Abstract

In the field of higher education, especially in the context of health, emphasis has been gaining reflections on the failure of traditional educational models across emerging educational paradigms, bringing as an immediate consequence of the need to review the educational process, as well as reflect on the posture educators today. In this sense, the study aims to discuss higher education in health, seeing demonstrate the importance of a new teacher, able to collaborate with the construction of prepared subject to act critically and reflectively against health reality in which they are inserted. Studies show that strategies for change that take place in the space of health training, point to the need to overcome a technical training, especially as regards the need to realize that the human being is no longer characterized by the mind and body separation , reason and emotion, objectivity and subjectivity, among others disjunction processes that human. Importantly, this look extended to higher education in the context of health and the teacher must be present in the pedagogical projects of training in Brazilian universities, demonstrating that the health sciences have begun to be parasitized by an ideal of change, which has interdisciplinarity, the basis for thinking their transformation.

Keywords: Higher Education. Training in Health. Complexity.

Para além do pensamento domesticado: reflexões sobre docência e educação superior no contexto da saúde

Resumo

No campo da educação superior, em especial no contexto da saúde, vem ganhando destaque as reflexões sobre a insuficiência dos modelos educativos tradicionais frente aos paradigmas educacionais emergentes, trazendo como consequência imediata à necessidade de se rever o processo educativo, bem como refletir sobre a postura dos educadores na atualidade. Nesse sentido, o estudo tem como objetivo discutir a educação superior no âmbito da saúde, vislumbrando demonstrar a importância de um novo professor, capaz de colaborar com a construção de sujeitos preparados para atuar de modo crítico e reflexivo frente a realidade de saúde na qual estejam inseridos. Os estudos demonstram que as estratégias de mudança que acontecem no espaço da formação em saúde, apontam para a necessidade de superação de uma formação tecnicista, principalmente no que se refere à necessidade de perceber que o ser humano não mais se caracteriza pela separação mente e corpo, razão e emoção, objetividade e subjetividade, entre tantos outros processos de disjunção desse humano. Importante destacar que esse olhar ampliado para a educação superior no contexto da saúde e para o professor, deve estar presente nos projetos pedagógicos de formação nas universidades brasileiras, demonstrando que as ciências da saúde já começam a ser parasitadas por um ideal de mudança, que tem na interdisciplinaridade, as bases para pensar a sua transformação.

Palavras-Chave: Educação Superior. Formação em Saúde. Complexidade.

Recibido: 14 de agosto de 2016  Aceptado: 19 de octubre de 2016

Algumas Reflexões Iniciais

No universo da sociedade moderna, inúmeras são as situações e fenômenos que se tornam objeto de calorosas discussões.  No campo da educação, vem ganhando destaque as reflexões sobre a insuficiência dos modelos educativos tradicionais frente aos paradigmas educacionais emergentes, trazendo como consequência imediata à necessidade de se rever o processo educativo em todos os níveis de execução, bem como convida a reflexão sobre a postura dos educadores no contexto da sociedade atual, definida como sociedade do conhecimento, da informação, da tecnologia, da cibernética, enfim, a sociedade dos grandes avanços científicos.

Ancorados em uma perspectiva da educação baseada na transmissão do “conteúdo programático” visando uma formação para o saber conhecer e fazer, muitos professores fazem da sala de aula um espaço de transmissão de conhecimento, os mesmos se colocam como os detentores de saberes e os alunos como meros receptáculos das informações. De acordo com Ailton Siqueira (2003, p. 191)

A maioria dos professores se sente gênio indomável por falar palavras dos outros e por pensarem pensamentos que não são seus. A sala de aula torna-se o lugar do discurso racionalista, redutor e disciplinar que se (re)afirma a partir do argumento de autoridade, esquecendo o importância da autoridade do argumento na construção do conhecimento.

Para o mesmo autor, são perceptíveis no contexto da educação atual, formas de ensinar que adestram o “pensamento sensível” e constroem um “pensamento domesticado”, numa alusão as ideias de Claude Lévi-Strauss (2010). Esse modelo educacional faz com que o processo educativo se resuma a transmissão de informações, que devem ser repetidas pelos alunos em um constante exercício de comprovação da aprendizagem, realizada a partir dos instrumentos normativos de avaliação. Essa prática educativa acaba por desencorajar os alunos a pensarem por si mesmos, levando-os muitas vezes a posturas acríticas e pouco reflexivas, uma vez que estes apenas repetem frases de efeitos ou conteúdos memorizados durante os seus anos de formação.

A situação torna-se ainda mais preocupante quando se discute o processo educacional no contexto do ensino superior, uma vez que a Universidade, compreendida ao longo da história como o espaço importante de produção de conhecimentos, portanto, um lócus privilegiado para a formação de sujeitos críticos e reflexivos, capazes de intervir de modo efetivo frente aos desafios presentes no século XXI, mantem-se apoiada em um modelo educativo fragmentador, disjuntivo e frágil no processo de construção de sujeitos capazes de agir com competências técnicas, éticas e políticas diante das realidades nas quais estão inseridos. O que ainda se percebe no contexto universitário é a repetição do padrão educativo do ensino básico, no qual o aluno tem enquanto maior obrigação fazer leituras e mais leituras para reproduzi-las em provas longas e intermináveis, não suscitando reflexões sobre sua prática profissional, sua formação acadêmica e a sua inserção na sociedade como um sujeito coparticipe dos processos de mudança.

Para Almeida (2003) a Universidade, assim como a conhecemos hoje tem seu nascimento datado no início do século XIX, com a reforma da instituição realizada por Humboldt, em Berlim, a qual idealizava a liberdade do pensamento e propugnava pela missão transecular e transnacional das ciências, alertando para o fato de que a Universidade não poderia ter como vocação direta a formação profissional, algo que seria inerente às escolas técnicas, mas uma vocação para a formação de uma atitude investigativa. Entretanto, o que se percebe nos dias atuais é que o processo de fragmentação departamental gerado pela criação dos departamentos acadêmicos e nestes a inserção das disciplinas e áreas de conhecimentos científicos produziu uma fratura entre a cultura científica e a cultura humanística, fazendo com que o espaço universitário seja percebido como um celeiro para a formação de profissionais técnicos, capazes de atuar de modo competente a partir de saber fazer eficaz diante das suas especialidades.

Bem vistas as coisas, é possível argumentar que a estrutura universitária foi tornando-se pesada demais para fazer acontecer o fluxo da produção, difusão e partilha do conhecimento ao qual ela se propõe. Desvinculada da sociedade; em antagonismo com outros espaços de produção do saber; montada em estruturas burocráticas autocentradas e sem conexões; seccionada por força do poder estatutário atividades inequivocamente inseparáveis; subsumindo a vocação prazerosa e ancestral do conhecer em estruturas de ‘cargos’, ‘carreiras’ e ‘regimes de trabalho’; fazendo coincidir hilária e desavergonhadamente titulação com sabedoria, produção intelectual com números de publicações e horas de sala de aula; propugnando de forma redutora e utilitarista pelo predomínio de respostas técnicas sobre a especulação, e assim por diante, a estrutura universitária tem se tornado, em parte, um empecilho para o fluir de um pensamento criativo e libertário. (ALMEIDA, 2003, p. 18)

Em meio a tantas questões acima apresentadas, a perspectiva da educação universitária centrada na figura do professor catedrático, que se insere na sala de aula para transmitir seus conhecimentos e formar profissionais técnicos com profundo conhecimento de sua especialidade, ainda é um grande desafio a ser enfrentado pelo projeto de mudança arquitetado e solicitado pelo mundo acadêmico desde meados do século passado. Esse modelo de ensino, ainda tão presente no contexto acadêmico contemporâneo traz como consequência o fato de que muitas vezes os estudantes tornem-se meros executores de tarefas, não despertando o senso crítico e de responsabilidade com a sua formação. O processo de implicação do estudante com sua aprendizagem são essenciais para se definir a permanência ou não na universidade, bem como para que estes possam desenvolver um melhor relacionamento com o contexto do ensino superior, identificando e aproveitando as oportunidades que surgem no universo acadêmico para o seu crescimento psicossocial e profissional. Quando o estudante consegue compreender as perspectivas de sua formação, este se torna um coparticipe no seu processo de crescimento intelectual e profissional.

Esse modelo fragmentador, disjuntivo e excludente presente na educação universitária se torna, portanto, insuficiente para a que a mesma cumpra seu papel de formadora de sujeitos sociais capazes de enfrentar de modo responsável os desafios impostos pela sociedade atual, principalmente porque, conforme Moraes (2003), ancorando-se nas ideias de Edgar Morin, os problemas atuais são de natureza multidisciplinar, transversais, transnacionais, globais e planetários, portanto, não podem ser resolvidos com ações disciplinares fragmentadas, isoladas e que não levem em consideração o contexto no qual os indivíduos estão inseridos.

Se esse modelo de formação é insuficiente, que caminhos devem ser percorridos para a sua superação e consequentemente a construção de novas formas de operar a formação no contexto universitário? As respostas para essa pergunta são diversas, entretanto, optamos por tomar como ponto de partida a ideia de que no universo da sociedade da informação e do conhecimento, nenhum caminho pode ser trilhado sozinho, é preciso reconhecer que os problemas da humanidade são sempre dinâmicos e muito complexos para serem resolvidos por apenas uma área de conhecimento ou uma forma única de saber. É urgente percebermos que a integração dos saberes é um importante instrumento no combate ao modelo fragmentador de pensar a vida, consequentemente de se pensar o conhecimento e sua produção.

Portanto, a educação universitária deve construir estratégias de atuação docente, nas quais a produção do conhecimento seja a mola mestra do desenvolvimento acadêmico, ou como nos fala Carvalho (2003, p. 69) “A contemporaneidade da educação, em qualquer nível em que se exerça, deveria concentrar esforços sintonizados na construção de saberes universalistas, na formação de pensadores capazes de enfrentar os desafios do conhecimento e criar novas formas de entendimento do mundo.”.

É importante atentarmos para o fato que não devemos apenas assumir a produção do conhecimento, mas a construção de saberes que sejam capazes de contribuir com as mudanças necessárias ao fazer profissional das diversas áreas de conhecimento. É urgente, como nos ensina Morin (2004, p. 15) a produção de conhecimentos pertinentes, compreendido como “o que é capaz de situar qualquer informação em seu contexto e, se possível, no conjunto em que está inscrita.” Assim poderemos romper com a cadeia de separação e isolamento que aprendemos no nosso processo de instrução escolar e que continua no contexto acadêmico.

Isto posto, é imprescindível que pensemos o problema da educação superior considerando, por um lado, os efeitos da fragmentação e compartimentação dos saberes e da dificuldade de articulá-los, e por outro reconhecendo que a capacidade de integrar e compartilhar é inerente a mente humana, que tem que encontrar na educação o caminho para o estimulo e a ampliação e não para o seu atrofiamento. (MORIN, 2004).

É importante pensarmos que o apelo e o desafio a essa nova forma de educação está lançado, e não podemos nos furtar a responsabilidade de caminharmos rumo à mudança e a melhoria da qualidade da educação, entretanto, para isso é preciso que façamos escolhas e tracemos caminhos. É necessário que tenhamos a coragem de correr riscos, de nos aventurarmos na ousada aventura da produção do conhecimento por caminhos poucos trilhados, reconhecendo inclusive que a imprevisibilidade e incerteza serão sempre parceiros nessa caminhada.

Particularizando para a formação em saúde, é importante que esse olhar ampliado também leve em consideração a reforma sanitária e a construção e consolidação do Sistema Único de Saúde, bem como as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação em saúde, que trazem enquanto grande desafio a formação de profissionais críticos e reflexivos, com competências técnicas, éticas e políticas, como base para as transformações consideradas essenciais ao processo de formação e qualificação em saúde.

Dessa forma, torna-se desafio maior para a construção de profissionais com esse perfil, a realização de uma formação interdisciplinar, na qual seja possível integrar o conhecimento das diversas áreas de saberes, permitindo a esse profissional em formação refletir sobre o contexto no qual se desenvolve o seu trabalho e qual a sua parcela no campo do trabalho coletivo em saúde.

Esse novo profissional requer outro processo de formação, que por consequência exige um novo modelo de professor, que longe de ser um transmissor de conhecimento, deve ser um facilitador do processo ensino/aprendizagem. O equívoco de que grandes profissionais em suas áreas específicas serão necessariamente ótimos professores, situação bem presente no contexto das formações do tipo bacharelado, evidencia que o processo de formação docente deve permear o processo educativo, uma vez que uma boa educação se constrói a partir do conhecimento específico do docente atrelado as estratégias pedagógicas construídas durante o ato educativo.

Feito as escolhas, decididos os caminhos, novas perguntas se fazem: os professores no contexto da saúde estão preparados para assumir o desafio? O processo de formação desses professores atende aos pré-requisitos para esse novo modelo de educação? Existe disponibilidade dos docentes para assumir esse movimento de mudança? Sabemos que essas são apenas algumas indagações que compõe o corolário dos questionamentos feitos em virtude desse novo contexto educacional, entretanto, longe de querermos estabelecer qualquer resposta apressada a algumas delas, apresentamos nossas reflexões tomando como ponto de partida a realidade da educação superior no contexto da saúde, destacando a importância do professor/educador nesse cenário.

Nesse sentido, o estudo que ora apresentamos, caracterizado como uma abordagem teórica produzida a partir das pesquisas dos autores e suas observações no contexto da educação superior, tem como objetivo discutir a educação superior no âmbito da formação em saúde, vislumbrando demonstrar a importância de um novo professor educador, capaz de colaborar com a construção de sujeitos com competências técnicas, éticas e política,  capazes de atua de modo crítico e reflexivo frente a realidade de saúde na qual estejam inseridos.

Nesse contexto torna-se crucial a realização de estudos e pesquisas capazes de colaborar com a produção de novos conhecimentos capazes de despertar uma reflexão crítica por parte de estudantes, professores e dirigentes acadêmicos, no sentido de se garantir a construção, sistematização e organização de um novo fazer pedagógico em saúde, através de processos contínuos e permanentes de formação docente.

Reflexões Sobre a Docência e Educação Superior no Contexto da Formação em Saúde

O percurso da educação superior no âmbito da formação em saúde variou de um ensino empírico para a construção de teorias sobre as técnicas do cuidado em saúde, sendo estes ainda muito presentes no contexto da formação atual. O modelo técnico do ensino em saúde é produto de uma educação autoritária, pouco questionadora, centrada nos conteúdos, que muitas vezes resultam em acúmulos de informações sem necessariamente gerar um conhecimento a esse profissional.

A partir do século XX, com marco de movimentos sociais, percebe-se o início da elaboração e da intensificação da construção do conhecimento voltadas para realizar a assistência e o cuidar do paciente, persistindo ainda o modelo hospitalocêntrico, modelo este que consiste em uma atenção individualizada. No entanto, o enfoque mecanicista que era predominante, modifica-se para um modelo mais tecnicista, suprindo assim a grande demanda de cuidados. Colaboram para essa prática tecnicista as diretrizes para a formação em saúde, que pautadas no paradigma flexneriano, assumem as orientações curativistas, tecnicistas e assistencialistas como base para o trabalho das várias profissões da saúde, consequentemente isso vai ser percebido no contexto da formação.

Essa realidade passou a ser questionada quando novas perspectivas de saúde foram sendo construídos nas três últimas décadas do século passado, uma vez que se percebeu que o profissional da saúde não poderia mais ser formado apenas na perspectiva técnica, tornava-se essencial a formação de trabalhadores engajados na realidade, capazes de intervir nos diversos níveis de atenção à saúde, ou seja, profissionais com formação generalista, acompanhando assim as exigências do mercado, a parti de uma formação voltada para o Sistema Único de Saúde - SUS (ITO et al, 2006).

Diante dessa realidade, a Universidade, como espaço responsável pela formação, precisou rever seus projetos pedagógicos, bem como refletir sobre o perfil dos seus professores, que no contexto da saúde, muitas vezes assumem a sala de aula sem uma formação especifica e acaba reproduzindo modelos de ensino que não atendem as necessidades de uma formação mais integral. O reconhecimento da insuficiência dos métodos transmissores de ensino, bem como no caso da saúde, as mudanças políticas e estruturais produzidas pelo Sistema Único de Saúde, que exige um profissional crítico e reflexivo, com competências técnicas e posturas éticas e políticas, convergem para a necessidade de uma formação ampliada e integral em saúde, sendo a mesmo possível a partir da interação entre educandos, educadores, serviços e gestores de saúde, estando a instituição formadora como mediadora de todo esse processo.

Nesse cenário torna-se imprescindível a figura de um professor que seja capaz de despertar nos estudantes o compromisso com uma formação mais ética e humana. No contexto das “monoculturas da mente”, expressão cara a Vandana Shiva (2003), o professor que se insere no âmbito da educação superior em saúde, precisa atuar como um fisioterapeuta do pensamento1, capaz de animar sonhos e desencadear o amor pela sabedoria, só assim, será possível despertar nesses profissionais a sua imensa responsabilidade e compromisso com a vida daqueles que muitas vezes ficam sob seus cuidados.

Cabe a esse professor um exercício importante de religação de saberes, de construção de um diálogo constante e permanente entre cultura cientifica e cultura humanista, para tanto é imprescindível que esse educador produza trabalhos que busquem a articulação entre os saberes, possibilitando também a ruptura da desarticulação entre a teoria e a prática, tão comum nos processos de formação, ou seja, a organização de propostas interdisciplinares de intervenção que venha a repercutir diretamente no processo de formação em saúde.

O desenvolvimento de trabalhos interdisciplinares deve ter como objetivo estimular a realização de estudos, pesquisas, seminários, práticas reflexivas e inovações pedagógicas que visem sua implementação nas diversas áreas do conhecimento, ensino e trabalho considerando as inter-relações existentes entre elas, numa perspectiva de estruturação do conhecimento e do ensino-aprendizagem. Isto implica colocar em evidência uma nova atitude perante o saber, um novo modo de ser e de agir, respeitando atitudes frente à infinita criatividade e procurar cultivar a lucidez, a prudência e a ousadia visando o desenvolvimento do ser humano.

A realização de atividades com caráter interdisciplinar torna-se essencial para a formação de novos sujeitos sociais comprometidos com a transformação da realidade vigente. Refletindo sobre essa temática, Miranda, Souza e Barbosa Júnior (2004, p.04), afirmam que:

(...) para todos os fins práticos, uma IES com tais características interdisciplinares formaria um profissional muito mais completo, uma vez que todo o curso superior passaria a funcionar como uma efetiva transição entre o aluno de segundo grau e o profissional formado, transição esta, que hoje encontra-se restrita ao período mínimo do estágio curricular.

Nesse novo contexto educacional, é essencial que o professor utilize estratégias metodológicas capazes de aproximar o estudante da realidade na qual o mesmo deverá enfrentar para o desenvolvimento do seu papel enquanto agente de transformação social.

Segundo Cyrino e Pereira (2004), proporcionar experiências inovadoras é despertar o interesse no educando mediante construção do seu próprio ensino-aprendizagem, evitando assim a reprodução do conhecimento. A partir disso, o professor/educador torna-se um facilitador/auxiliar das experiências vividas pelos seus alunos, quebrando assim um modelo dominante de ensino, que resulta em sua própria produção de conhecimento, um estudante mais crítico e reflexivo perante concepção de mundo e sociedade (MITRE et al, 2008). Portanto, torna-se essencial a construção de estratégias que rompam com o ensino tecnicista e construam uma formação que respeite a diversidade e a pluralidade do sujeito humano.

Ainda é preciso pensar que uma nova perspectiva para a formação em saúde não podem deixar de reconhecer as Novas Diretrizes Curriculares para a formação em saúde que sinalizam a necessidade de mudança paradigmática na educação, cujos objetivos, entre outros aspectos, é de levar os alunos dos cursos de graduação em saúde a aprender a aprender que engloba aprender a ser, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a conhecer.

O enfoque pedagógico, que percorre tal via, está pavimentado em estratégias pedagógicas do que é ensinar, aprender e apreender. Dessa postura resulta que o ensino deixa de cair no colo do educando para se tornar um pilar de transformações dos paradigmas sociais e humanos, uma troca de experiências entre educadores e educandos, valorizando as dimensões éticas e humanísticas, possibilitando o fluxo de ideias e sinalizando para um salutar intercâmbio onde todos passam a transitar e interagir respeitosamente.

Neste cenário, é preciso repensar o papel do educador e as formas de ensino da área de saúde diante dos muitos princípios pedagógicos inspirados em propostas da Unesco e da Organização Mundial de Saúde, como a pedagogia do aprender a aprender, que foi incorporada em todas as diretrizes da área de saúde. Sendo que esta transformação se dará no instante em que o professor, compuser seu papel de forma mais consciente e integral, a partir de postura mais crítica e reflexiva, contribuindo assim para seu processo de autoformação (FERNANDES, 2005).

De acordo com Delors (1998) a educação necessária frente ao século que inicia, devem organizar-se em torno de quatro aprendizagens fundamentais, que ao longo de toda a vida, serão de algum modo para cada indivíduo, os pilares do conhecimento:

• O pilar “aprender a conhecer”, segundo Delors, não visa à aquisição de um repertório de saberes codificados, mas o domínio dos próprios instrumentos do conhecimento que pode ser simultaneamente, um meio e uma finalidade da vida humana. O aprender a conhecer significa descobrir suas próprias ferramentas para enfrentar as mudanças velozes do mundo globalizado, pois o conhecimento que se aplica hoje, amanhã pode não mais se aplicar, resultando em o aprender a aprender;

• O “aprender a fazer”, segunda aprendizagem, está mais estreitamente ligada à questão da formação profissional: como ensinar o aluno a pôr em prática os seus conhecimentos;

• A aprendizagem “aprender a viver juntos”, constitui um dos maiores desafios da educação hoje dentro de um cenário mundial de violência. Até agora, a educação não pôde fazer grande coisa para modificar esta situação real;

• O desenvolvimento do “Aprender a Ser” tem por objeto a realização completa do homem, em volta a sua riqueza e na complexidade das suas expressões e dos seus compromissos: indivíduo, membro de uma família e de uma coletividade, cidadão e produtor, inventor de técnicas e criador de sonhos.

É claro que estas quatro vias do saber constituem apenas uma, no qual existem entre elas múltiplos pontos de contato, de relacionamento e de permuta. Fica claro que os enlaces entre as estratégias pedagógicas se articulam ao saber, o saber fazer e o saber conviver, visando desenvolver o aprender a aprender, o aprender a ser, o aprender a fazer, o aprender a viver juntos e o aprender a conhecer constitui atributos indispensáveis à formação do profissional da saúde.

Nesse mesmo caminho de construções e reconstruções do agir docente no universo da formação em saúde, podemos perceber que além dos ensinamentos propostos a partir do Delors (1998), o processo de reforma da educação propugnado por Edgar Morin (2000), no seu Sete saberes necessários à educação do futuro pode funcionar como um farol a iluminar os percursos a serem assumidos por professores que assumem o compromisso com uma formação mais complexa no universo da saúde.

Ao trazer para o espaço das salas de aula e dos demais laboratórios de aprendizagem Os Sete Saberes apresentados por Morin: as cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão; Os princípios do conhecimento pertinente; Ensinar a condição humana; Ensinar a identidade terrena; Enfrentar as incertezas; Ensinar a compreensão; e A ética do gênero humano, os docentes poderão refletir a partir de preceitos fundamentais da condição humana, permitindo que novos saberes e práticas possam ser construídos, favorecendo reflexões capazes de nutrir uma formação mais integral e complexo no contexto das ciências da saúde.

Algumas Considerações Finais

A realidade observada durante a realização do estudo nos permite reafirmar que as diversas investidas em estratégias de mudança que acontecem no espaço da formação em saúde, reconhecem que esse processo precisa extrapolar os limites de uma formação tecnicista, baseado no modelo médico centrado, pautado somente em conhecimentos científicos, no qual a fragmentação representa a ordem para que possa atender melhor o corpo doente, devendo assumir uma postura mais aberta ao diálogo com outras formas de conhecimento, principalmente no que se refere à necessidade de perceber que o ser humano não mais se caracteriza pela separação mente e corpo, razão e emoção, objetividade e subjetividade, entre tantos outros processos de disjunção desse humano.

Importante destacar que, esse novo olhar para a educação superior no contexto da saúde e para o professor, bem como essa perspectiva mais ampliada para a saúde e para o humano deve estar presente nos projetos pedagógicos de formação dos cursos de medicina, odontologia, fisioterapia, enfermagem, psicologia e nutrição em todas as universidades brasileiras, demonstrando que todas as ciências da saúde já começam a ser parasitadas por esse ideal de mudança, que tem na integralidade, compreendidas como a possibilidade de diálogo entre as diversas áreas de saberes e de ações em saúde, as bases para pensar a sua transformação.

Nota

1 A expressão fisioterapeuta do pensamento foi cunhada pela professora Dra Josineide Silveira de Oliveira, durante banca de mestrado de uma profissional de saúde que estudava narrativas de vida de enfermeiras brasileiras. A tomamos de empréstimo para pensarmos o papel do professor educador.

Referencias

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